01 maio, 2018

EMANAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Thomas Eakins | Clara

Pode um texto ser mais expressivo do que a imagem que lhe corresponde, por exemplo, num filme? Sim, pode, e por uma razão óbvia: há processos mentais cuja subjectividade e complexidade só a palavra permite exprimir. E se for o caso de um texto meramente descritivo? Sim, também, podendo as palavras ser mesmo mais reais do que a sua imagem. Não se trata, pois, de uma imagem a valer mais do que mil palavras mas de palavras que valem muito mais do que as imagens.

Vejamos três passagens de Middlemarch:

«Rosamond moveu o pescoço e passou a mão pelo cabelo, afectando a imagem de uma indiferença plácida»

«Mrs. Hackbutt friccionou as costas de uma das mãos na palma da outra, juntando-as sobre o seu peito, e deixou que os seus olhos percebessem vagamente o desenho do tapete»

«-Estás a ouvir-me?-Trovejou Lydgate.
- Sim, estou a ouvi-te, com certeza - disse Rosamond, virando a cabeça de lado com um movimento gracioso do seu pescoço alongado como o de uma ave»

Em cada uma destas passagens existe um elemento descritivo, digamos que objectivo, e um elemento subjectivo. Mover o pescoço e passar a mão pelo cabelo é uma coisa, atribuir a esses dois gestos uma «indiferença plácida» já será outra. Friccionar as mãos e juntá-las no peito não é o mesmo que qualificar um olhar como vago. E o simples movimento lateral de uma cabeça é bem diferente da sua graciosidade em virtude um um pescoço «alongado como o de uma ave».

Entretanto, estive a ver no Youtube excertos de um Middlemarch produzido pela BBC, sendo o resultado deveras frustrante, apesar de caprichosa curiosidade em «descobrir» pessoas que se acompanharam apenas mentalmente durante meses. Frustração que nada tem que ver com falta de qualidade da série mas resultado natural de uma transposição do texto para a imagem. Quando eu leio

                                       «Rosamond moveu o pescoço e passou a mão pelo cabelo»

dou com a descrição de dois movimentos físicos feita por uma escritora que viveu entre 1819 e 1880, movimentos protagonizados por uma mulher que na mente da escritora terá de ser do século XIX, através de palavras das quais não decorre qualquer impressão sensível. Se eu disser «O João brinca com os carrinhos debaixo da árvore do seu jardim», não existe aqui qualquer impressão sensível. É apenas um rapaz, uma árvore, um jardim e carrinhos, não passando de conceitos. Ora, Rosamond, que move o seu pescoço e passa a mão pelo cabelo, apresenta-se aqui igualmente nessa condição, isto é, sem qualquer contaminação sensível. Uma mulher do século XIX escreve «pescoço», «mão», «cabelo», dando vida a esses três elementos físicos, traduzindo o que só pode ser uma mulher do século XIX. Não se vê a mulher mas possuímos as palavras que «vêem» a mulher, escritas por uma mulher do século XIX que vê mulheres do século XIX e nunca tendo visto outras.

Já quando vejo as imagens na série da BBC, o que acontece é um certo nível de degradação no sentido plotiniano. Para Plotino, todas as coisas são emanações de um princípio uno e originário, apresentando vários graus: quanto mais emanações, mais as coisas se degradam face àquele princípio. Eu vejo as imagens da série da BBC e o que vejo são actores e actrizes, dirigidos por um realizador,  que pretendem reproduzir fisicamente o que surge em estado puro nas palavras da escritora. Eu leio as palavras da escritora e a minha mente está toda ela concentrada no movimento físico de uma mulher do século XIX, graças à ligação directa, imediata, intuitiva, entre a minha mente e a mente de uma escritora do século XIX. Com as imagens, tudo isso se perde irremediavelmente, não passando de uma caprichosa, ociosa e degradante pantomima.