16 maio, 2018

CADEIA CAUSAL


Eis, rapidamente, o que se entende por cadeia causal, servindo-me da definição de Simon Blackburn: "A sequência de acontecimentos que conduz a um certo efeito final , onde cada membro da sequência causa a ocorrência do membro seguinte." Numa mesa de bilhar, colocamos várias bolas seguidas, ligeiramente afastadas umas das outras. Damos uma tacada na primeira que, depois, vai bater na segunda que, depois, vai bater na terceira e assim sucessivamente. O encadeamento é tal que, para perceber o modo como as bolas ficaram distribuídas no final, teríamos de filmar o processo para, depois, com a imagem a andar para trás em câmara lenta, podermos estabelecer todas as ligações causais. Trata-se, neste caso, de uma situação puramente física. Mas podemos aplicar a mesma ideia a tudo, incluindo as nossas vidas, para explicar todo o processo de causas e efeitos que levou a sermos o que somos e por que somos, o que fazemos e por que fazemos, o que nos acontece e por que nos acontece.

Pronto, agora já posso falar desta fotografia (Ivor Prickett, World Press Photo 2018, categoria General News, First Prize Stories). O seu centro é claramente o rosto  luminoso da menina, é para esse rosto que se dirige tão naturalmente o nosso olhar como uma pedra que cai na direcção do chão. Mas o rosto luminoso, livre e aberto da menina não está só. Está apertado entre duas mulheres de preto e rosto coberto, abraçando a da frente em busca de protecção. Não fosse a menina e teríamos uma uniforme e monótona sequência de mulheres vestidas de preto e rosto coberto.

Mas podemos ver a fotografia noutro prisma e agora, sim, volto à cadeia causal. Esta menina mostra aqui o seu rosto luminoso, livre e aberto porque é uma criança. Se esta mesma fotografia fosse feita num futuro próximo, já não iríamos ver o seu rosto mas apenas mais uma mulher de preto e cara tapada.  É neste sentido que podemos estabelecer, para além da ordem visual da fotografia, uma ordem lógica. Nas duas mulheres entre as quais se encontra a menina, podemos desvendar tanto o seu passado como o seu futuro. A mulher de trás é o mundo que já existia antes desta menina e que a recebeu. Nasceu ali, no mundo daquela mulher de preto, não na Dinamarca, Uruguai, Canadá, Quénia ou Nova Zelândia. Mas é precisamente por ter nascido nesse mundo que a menina irá ser um dia como a mulher da frente. O que esta fotografia nos mostra, por isso, é uma nesga de luz entre um passado e um futuro negros, num mundo onde o rosto das mulheres não é livre e aberto, podendo, como no caso ainda desta menina, mostrar a sua luz.