19 maio, 2018

A NOITE E OS RISOS


Já me diverti com bastantes livros. Mas sou tão pouco dado às gargalhadas, àquele espasmo sonoro que sai tão impetuoso e inesperadamente, que consigo lembrar-me bem do sítio e momento em que raras vezes me saíram diante de um livro. A primeira, devo-a a Eça, tinha eu 20 anos, altas horas numa daquelas noites que passava a ler durante as férias. A última foi hoje de manhã e devo-a de novo ao génio de Eça. Não sei se é para fechar um círculo mas também não é coisa que importe. O que sei é que, indo um dia desta para melhor, serei menos um que um dia deu queirosianas gargalhadas. Sendo cada pessoa um simples átomo, a sua morte representa apenas o fim das memórias desse átomo. Nada de dramático, portanto. Mas será bem triste o tempo em que Eça irá deixar de ser lido, morrendo, a jusante, os sorrisos, risos ou gargalhadas que, a montante, começaram a ser escritos pela sua pena fina e mordaz. Entrar numa igreja ou palácio em ruínas não deixa de ter o seu encanto romântico e serena melancolia. Um livro de Eça que deixar de ser lido é como uma catedral submergida mas que, ao contrário da tocada por Debussy, ficará irremediavelmente perdida no fundo do mar e com os seus risos silenciados pela escuridão.