26 maio, 2018

A ESTETICIZAÇÃO DO ABISMO



Ao longo de vários anos, entre 1838 e 1865, o compositor Franz Liszt foi transcrevendo para piano as nove sinfonias de Beethoven. Ouvi-las assim permite uma experiência mais intimista e mais próxima da sua construção original, anterior à sua monumentalidade orquestral e vocal. É quase como estar perante o seu genótipo. Ora, foi a transcrição da nona sinfonia que ontem resolvi meter na aparelhagem para me ajudar na árdua tarefa de passar uma montanha de roupa a ferro. Entretanto, vou no 3ªandamento quando, de repente, me vem à cabeça o Paco Bandeira. Pode ser chocante mas inevitável a partir do momento em que já se ouviu várias vezes a Ternura dos 40. Razão tinha Nietzsche quando dizia que quando se olha muito para o abismo, o abismo passa a olhar também para nós. Talvez isso ajude também a perceber por que razão Luís II se exilou em Neuschwanstein: procurar, romanticamente, o abismo que julgava merecer.