30 abril, 2018

VERSOS E VERSÕES

Ineke Kamps | Série Lost Souls

Um dos Spleen de Baudelaire começa, com chave de ouro, com o seguinte verso: «J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans». É impressão minha ou começar um poema assim, independentemente do que se lhe segue, sugere tristeza e não alegria? Mais do que um estado de serena nostalgia, uma melancolia suspensa numa subtil fronteira com um estado de perturbação e amargura? Pode parece abusivo uma vez que recordações são recordações, não tendo, à partida, que ser boas ou más. E, na verdade, o que não falta são poemas nos quais se invoquem boas recordações. A explicação parece estar «numa vida que parece ter mil anos». No peso dos mil anos, bem diferente da alegre leveza de quem diz, como Neruda, "Confesso que vivi", ainda que tenha vivido bastante. Uma vida de recordações felizes é uma vida que parece durar pouco, pois a felicidade faz a vida passar depressa. A tristeza, pelo contrário, torna-a num longo calvário, num deserto sem princípio nem fim que se atravessa tão pesadamente que mais parece nunca se ter feito outra coisa na vida, ou que já se tivesse nascido com um passado agrilhoado na alma e que nunca a irá abandonar. Se em vez daquele verso tivesse o poeta falado de mil recordações como se tivesse vivido um só ano, o resultado seria bem diferente.