26 abril, 2018

O ROUPÃO

(Chinatown)


«Chegada àquele templo de amor, escolhi o roupão mais galante. É um vestuário delicioso, de minha invenção: não deixa ver nada, e faz adivinhar tudo»  
                                                                                     (carta da Marquesa de Merteuil ao Visconde de Valmont)

Toca a marquesa, com a pena, na mais sensível ferida do erotismo, graças ao seu roupão. Mas também se poderia referir à corrupção em Portugal, neste caso, através de um movimento inverso àquele que refere: faz adivinhar tudo mas não deixa ver nada. Seja no mundo da política ao mais alto nível, de autarquias, de empresas, consegue-se adivinhar, pois aí estão os sinais exteriores para quem os quiser ver, ou até aproveitar e bajular. Mas sem nada se ver, como se não passasse tudo de um sonho que logo se evapora. E tal como acontece com o vestuário sensual, há também na corrupção um jogo do olhar, um jogo entre quem vê e quem é visto. A grande diferença é que, no caso da corrupção, contentamo-nos apenas em imaginar sem nunca chegar a pôr os olhos em cima do obscuro objecto de desejo. Tão perto, tão tangível, mas tão longe e tão inatingível, também.