23 abril, 2018

JOSÉ DE RIBERA- MAGDALENA VENTURA COM O SEU MARIDO E FILHO



A decisão, há tempos, do metro de Londres em não tratar mais os seus utentes por «senhoras e senhores»  para não excluir outras identidades é apenas um pormenor de um tempo em que dividir o mundo entre homens/mulheres ou masculino/feminino, se tornou simplista, exclusivo, discriminatório e reaccionário. Houve um tempo (no fundo, todo o tempo) em que de um lado havia homens, os quais faziam coisas que só os homens faziam, e do outro mulheres, as quais faziam coisas que só as mulheres faziam. Entretanto, e muito felizmente, passámos a ter homens que fazem coisas que as mulheres passaram também a poder fazer e mulheres que fazem coisas que também os homens passaram a poder fazer. Passámos assim a ter um mundo (refiro-me, claro, aos países cristãos desenvolvidos) em que cada vez mais, de um ponto de vista social, cultural e familiar, é cada vez menos importante ser homem ou mulher. Chama-se a isto evolução pessoal, social, moral e até civilizacional.

Ainda assim, continua a ser um tremendo incómodo, tanto de um ponto de vista prático (por exemplo, casas de banho) como legal, como psicológico, haver apenas homens e mulheres ou apenas género masculino e feminino, mantendo-se assim uma visão simplista, exclusiva, discriminatória e reaccionária. Isto, porque existem mais orientações sexuais do que o número de vezes que o Sporting foi campeão nos últimos 40 anos. Algo ignorante nestas matérias, fui pesquisar, sendo então informado de que a heterossexualidade é apenas mais uma orientação entre outras, como a homossexualidade, a bissexualidade, a transsexualidade, a panssexualidade (também conhecida por omnissexualidade, polissexualidade ou trissexualidade), a assexualidade e o intergénero. Embora nalguns casos me pareça mais tratar-se de desorientação do que de orientação sexual, todas elas me merecem tanto respeito como alguém que tem a casa cheia de posters do Tony Carreira, ser Testemunha de Jeová ou preferir o Macdonald's a um cabrito assado com batatas e grelos. Gostos que não partilho mas que considero absolutamente indiferentes no que ao carácter da pessoa diz respeito assim como aos seus direitos enquanto cidadão, ou vá, cidadã. Daí cada vez mais o incómodo em continuarmos a pensar e a agir como o clássico e redutor sistema binário homem/mulher, masculino/feminino. O ideal seria mesmo que, tanto em termos práticos como legais ou psicológicos, deixasse de haver homens e mulheres ou género masculino e feminino que nos aperta e limita como desconfortável camisa de força.

Estava eu nestas elucubrações quando, de repente, me lembro do quadro de Ribera. Céus, há quanto tempo não o via ou sequer pensava nele. Resultado desse tempo distante e do facto de alguns dos mais importantes pintores espanhóis do século XVII, como é o caso de Ribera assim como de Murillo ou Zurbarán, pintarem santas, algumas delas mártires, como Santa Cassilda, Santa Lúcia, Santa Apolónia ou Santa Úrsula, fui levado a pensar, arbitrária e erradamente, que a figura feminina representada no quadro fosse a de uma santa. Não é. Não é, mas há qualquer coisa de nobre e hierático na sua figura que surge assim, com toda a dignidade, frontalidade e de cabeça erguida, diante dos nossos olhos, na companhia do marido que, em vez de fugir, esconder, aparecer de costas, de cara tapada, a assobiar para o ar, assume sem complexos a transformação física da esposa. Impressionante, pois, como um quadro do século XVII e de um pintor tão dado a temas religiosos, se revela de uma modernidade avassaladora. Para além disso, convém não esquecer que, para além da bela ressonância do seu nome próprio há que contar com o fortíssimo simbolismo do seu apelido: Ventura.

Em suma, a modernidade desta mulher (chamemos-lhe assim), não se deve apenas a razões conceptuais e ideológicas, juntando no mesmo corpo uma ubérrima dimensão mamária e uma viril capilaridade. Permite também perceber que o seu destino, com o qual não contava, não lhe retira qualquer espaço, mantendo uma dignidade que é ao mesmo tempo feminina (a criança ao colo que o diga e provavelmente o marido que tem bem com que se entreter) e masculina, não ficando atrás de homens de barba rija como o Barbas da Costa da Caparica ou os actuais barbeiros hipsters. No fundo, há qualquer coisa de utópico nesta figura ambígua, abrindo as portas para qualquer conjectura de natureza sexual. Quem sabe se, ainda que num futuro ainda  longínquo, resultante de um processo filogenético amigo da liberdade e da criatividade sexual, não iremos ter este modelo de humanidade no que seria uma verdadeira revolução antropológica que elimina sexos, géneros, identidades sexuais rígidas, passando apenas  a haver pessoas sexuadas, seja lá o que isso for.