09 abril, 2018

IDEIAS AO VENTO

Robert Hecht | Páginas do livro de S. Rafael

É muito interessante a expressão "Passar uma coisa pela cabeça", como quando se diz "Ia a andar na rua e passou-me pela cabeça isto ou aquilo...". Por duas razões. Pela exactidão da expressão, a qual não poderia ser mais clara. Mas também pela sua versatilidade e proficuidade, uma vez que serão mais as nossas ideias, incluindo as mais importantes e elaboradas, a passarem por nós do que nós a irmos ter com elas. Como é que nos tornamos de esquerda ou de direita, social-democrata, comunista, liberal ecologista, republicano, monárquico, adepto do partido A ou B, fiel ao líder A ou ao líder B, enfim, como é que somos contra ou a favor de uma coisa?

Ao contrário do que se passa com um matemático ou um físico em busca de um resultado, acredito que grande parte dessas nossas escolhas não são mais do que inclinações resultantes de ideias e pensamentos que passam por nós. Quando, numa demonstração, o matemático raciocina para chegar a um resultado, segue um processo dedutivo absolutamente consciente de si próprio e do qual não se pode desviar, sob pena de alterar a sua legitimidade racional. Neste caso, é ele que vai ter com uma ideia para depois então dizer que X é verdadeiro ou que Y é falso. Ah, e então aquela cena do Arquimedes a sair da banheira, gritando "Eureka, eureka"? E a do Newton a levar com a maçã na cabeça enquanto dormia a sesta debaixo da árvore? Sim, tem a sua piada mas não é assim anedoticamente que as coisas funcionam em ciência. Mas provavelmente é assim que funcionam na vida comum de pessoas normais, ainda que com ideias e pensamentos que elas julgam controlar e cuja origem atribuem a um processo de livre e intencional reflexão. Ideias que passam pela nossa cabeça como um livro aberto pelo vento e que ficou caprichosamente aberto numa certa página . Claro que, depois, são essas ideias que iremos tentar demonstrar e legitimar com grande determinação. Fossem outras e iríamos fazer exactamente a mesma coisa.