19 abril, 2018

HERACLITO & COMPANHIA


Bem poderíamos ver neste homem pintado por Fragonard, a hierática figura de um santo cristão. Por exemplo, ou sobretudo, S. Jerónimo, uma das figuras mais retratadas na história da pintura e sempre no mesmo registo: solitário, austero, despojado de bens materiais, lendo ou escrevendo, bem longe da vida mundana e das vaidades deste mundo. Claro que soaria estranho Fragonard a pintar S. Jerónimos e afins. O seu mundo é o do prazer, da alegria, da festa, da galantaria, do erotismo, da transgressão, de luxuriantes jardins rococós, um mundo protagonizado por uma classe social cujas motivações hedonistas não poderiam divergir mais das de um santo mergulhado na sua meditação e em exercícios espirituais no deserto. Mesmo que pinte uma menina a ler, será uma menina coquette a ler.

Este homem pintado por Fragonard é um filósofo. Não de um filósofo em particular. Fosse esse o caso e a pintura seria outra. Estamos longe do século XX e um retrato não pode fugir da sua essência «fotográfica» que revela ao mundo o modelo retratado. Ora, não sendo «um» filósofo em particular isso dá ao pintor toda a liberdade para pintar «o» filósofo, quer dizer, a figura que para o pintor melhor exprima a ideia de filósofo. E que figura é essa? Uma figura algo impressionista, cujas formas parecem desvanecer-se, em que a matéria do seu corpo é feita da mesma matéria dos seus livros, uma figura completamente mergulhada na leitura. Não pode ser um livro qualquer, o que lê. Veja-se a expressão do rosto e o movimento do corpo lançado na direcção do livro como quem acede, tal como um profeta bíblico, a um conhecimento raro e inacessível para a maioria das pessoas que, como diria Heidegger andam distraídas nas suas vidas ou, como diria Pascal, nos seus pequenos divertissements.

É difícil olhar para «o» filósofo de Fragonard sem pensar no filósofo de Rembrandt em processo de meditação no seu fáustico gabinete



ou ainda neste filósofo, também de Rembrandt e, neste caso, como  o de Fragonard, lendo um livro


Sim, há diferenças. Enquanto o filósofo de Fragonard parece, com a sua leitura, estar a passar por uma experiência intelectualmente torrencial, os filósofos de Rembrandt estão tão tranquilos e suspensos na sua meditação ou na sua leitura como alguém que está dormindo. De qualquer modo, não deixam de ser representados na margem da realidade mundana. Posso até mesmo dizer: da realidade profana. Basta compará-los com o seu Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém, com o seu S. Paulo de olhar completamente alheado do mundo que o rodeia, com o modo como apresenta a figura de Cristo em Emaús ou até com o modo crespuscularmente sereno revelado na cena nocturna da sagrada família. Estes filósofos de Rembrandt, como o de Fragonard, não são santos mas também poderiam sê-lo.

Porém, nenhum destes três filósofos, ou antes, nada nesta ideia de filósofo, bate certo com a psicologia emanada dos verdadeiros retratos de filósofos. Vejam-se os retratos, digamos «oficiais», de David Hume



de Leibniz


de Voltaire, ao lado de Frederico II, em Sanssouci


de Kant


ou até mesmo este Descartes do meu muito querido Frans Hals, bem longe das caricaturadas personagens do pintor holandês


O que vemos aqui são homens com uma posição social elevada, cientes do seu prestígio, com uma gravitas burguesa ou aristocrática, homens que são aqui apresentados como filósofos mas que bem poderiam ser comerciantes, banqueiros ou apenas pessoas ricas vivendo dos seus rendimentos.

Podemos então dizer que a versão de Rembrandt e Fragonard sobre o que é «um» filósofo não bate certo com a verdadeira identidade «dos» filósofos? Sim, podemos. Os filósofos, grandes ou pequenos, são, na verdade, pessoas como outras quaisquer, e isso tanto pode ser entendido nas suas vidas institucionais como nas suas vidas pessoais. Nietzsche era um louco cujo passatempo preferido era andar pelas ruas de Turim a agarrar-se a cavalos maltratados pelos donos? Não, Nietzsche não enlouqueceu por ser filósofo mas porque o seu sistema nervoso central foi afectado pela sífilis, doença normal à época. Se Nietzsche surge aqui


tão «munchiano» não é por ser filósofo mas por ser um ser tão mentalmente perturbado como outras figuras munchianas. Quisesse o pintor norueguês pintar Kant, Hegel, Fichte ou Schopenhauer e o filósofo seria outro.

Há filósofos distraídos? Sim, há, como há engenheiros, músicos ou contabilistas distraídos. Se um engenheiro não é distraído por ser engenheiro, o mesmo se passa com um filósofo. Há filósofos com ar grave e sério? Sim, como há bancários, empresários ou agricultores com ar grave e sério. E convém lembrar que o mesmo Tales que caiu num buraco por andar a olhar para as estrelas, motivando o escárnio de uma escrava trácia, foi o mesmo Tales que se fartou de ganhar dinheiro graças aos seus conhecimentos.

Porém, a versão popular que se desenvolveu do filósofo, tendo chegado até ao século XX, foi aquela que vemos representada nos quadros de Rembrandt e de Fragonard. Pronto, está bem, um homem de carne e osso e no que às aparências diz respeito, igual a qualquer outro. Porém, lá no fundo, não é uma pessoa qualquer. Há muita gente que não é uma pessoa qualquer. Mas o que faz com que um rei, um presidente da república, um ministro, um músico, um grande empresário não sejam umas pessoas quaisquer, não é o mesmo que faz com que um filósofo também não o seja. A marca distintiva de um filósofo será sempre uma alma oracular, a capacidade de pensar coisas que mais ninguém pensa, de complicar coisas que são simples por ver  nelas o que mais ninguém vê, enfim, o dom quase místico de ocupar uma vida inteira com questões como «Por que há o ser em vez do nada?», «O que é uma coisa?», «Será a realidade real?», «Será que um carro cujas partes foram mudadas continua a ser o mesmo carro?». Claro que quem se ocupa com questões desta natureza ou de outras mais «populares» relacionadas com a existência de Deus, a imortalidade da alma ou o sentido da vida, e levando-se a sério por isso, não pode ser uma pessoa como outra qualquer, movimentando-se num universo espiritual onde poucos conseguem entrar e onde só se consegue subsistir graças a uma certa excentricidade. É verdade que formalmente como obscuro só tivemos um filósofo: Heraclito; Heraclito, o Obscuro. Porém, se virmos bem, a obscuridade é um traço de personalidade e de pensamento que, de uma maneira ou de outra, seja com base numa versão mais romântica, seja com base numa versão mais cómica ou até de desprezo, marca o imaginário popular a respeito do filósofo.

Hoje, porém, as coisas mudaram bastante no que diz respeito à imagem pública e popular do filósofo, sendo talvez a França ainda uma excepção. Claro que haverá pessoas mais velhas que ainda continuam a encarar o filósofo com um misto de veneração intelectual e desconfiança. Há uns anos, tendo ficado alojado em casa de uma professora reformada, em Londres, quando ela soube que eu era professor de Filosofia, fez um ar de espanto e logo disse: "Oh, you must be very clever!". Fiquei naturalmente envergonhado, até pela consciência de ter uma inteligência medianíssima que apenas me permite compreender o mesmo que à esmagadora maioria da população com alguma formação. Se eu tivesse dito que era professor de Matemática, de Inglês, de Física, de História ou de Educação Visual, estou certo de que não teria dito o mesmo a meu respeito, ainda que para o ser seja necessária inteligência ou até mesmo muita inteligência. Porque a inteligência a que ela se quis referir é de outra ordem, revestida de alguma obscuridade e mistério, a tal ordem que escapa aos mecanismos normais da inteligência comum e que associamos a áreas como a Biologia Molecular ou a problemas trigonométricos. Mesmo um especialista em Física Quântica, ao qual se reconhece grande inteligência, mesmo um cientista como Stephen Hawking, digno herdeiro de Einstein no que à visão popular da inteligência científica diz respeito, seriam vistos como tendo uma inteligência de uma natureza diferente da inteligência do filósofo, mais especulativa e livre, sem as amarras da dedução científica.

Hoje, porém, as coisas vão-se tornando, a pouco e pouco, bastante diferentes. A principal razão, de natureza histórico-cultural, tem que ver com o facto de ter acontecido à Filosofia o que já antes havia acontecido à religião: uma crise de grandes narrativas e sistemas que alimentavam todas as nossas leituras do mundo, tendo como consequência uma perda do seu impacto no mundo intelectual e social. Se entrasse agora num café e pedisse às primeiras pessoas que encontrasse para me darem o nome de três filósofos vivos, posso prever o fracasso da missão. Isto, apesar de se continuar a fazer filosofia de um modo bem vivo e estimulante, de continuar a haver grandes debates filosóficos no mundo académico, de continuar a haver filósofos de ponta que escrevem excelentes ensaios filosóficos. Porém, já não são grandes maitres à penser, gurus de reis e princesas, intelectuais que se metem por questões enigmáticas a que poucos têm acesso. Quantos filósofos do século XX fazem de Deus, da alma e do mundo, em sentido kantiano, os seus grandes temas? Com algumas excepções, a Filosofia tornou-se analítica, resolvendo problemas através de uma linha argumentativa que expulsou o escritor, o divagador, o literato que havia dentro de tantos filósofos. O filósofo, hoje, por muito importante que seja, não passa de um intelectual anónimo como qualquer matemático ou cientista de quem ninguém ouviu falar. A consequência boa foi o filósofo ter deixado de ser visto popularmente na linha de Heraclito, o obscuro, que ainda vemos representada nos quadros de Rembrandt e Fragonard. A consequência má é o facto de não ter deixado de ser obscuro para passar a ser apenas um intelectual normal. Foi, pura e simplesmente, por ter publicamente morrido, quando por vezes até faz bastante falta.