14 abril, 2018

COMPLEMENTO CIRCUNSTANCIAL DE ESCOLHA


Hoje, no teatro Virgínia, há um concerto de Chrysta Bell, actriz e cantora de quem nunca tinha ouvido falar. Fui ver do que se tratava, tendo chegado à conclusão de que não gosto nem deixo de gostar. Quer isto dizer que jamais sairia da minha terra para assistir a um concerto dela. Há meses, fui daqui ao Hard Club do Porto de propósito para assistir a um concerto dos Swans. Valeu a pena e nem o facto de vir de lá com os ouvidos espatifados me fez ficar arrependido. Sinceramente, com esta cantora, nem sequer para ir ali a Tomar ou a Santarém me daria ao trabalho de sair de casa, ainda que regressasse com os ouvidos intactos. Mas se para a ver cantar precisar apenas de sair de casa com o espírito com que vou até ali ao café da esquina ou comprar qualquer coisa no supermercado, o cenário muda radicalmente de figura. Mas isso também não é condição suficiente para me fazer sair de casa para assistir a um concerto. Há concertos no Virgínia, que nem os 5 minutos que demoro a lá chegar ou o facto de ficar de borla, me levaria até lá. Do mesmo modo que se tivesse de ir de propósito a Madrid, Paris ou Londres para ver os Swans, também é certo que não iria.

Serve isto para dizer que há coisas de que gostamos e valorizamos, coisas de que não gostamos e desvalorizamos. Mas o facto de as aceitamos ou rejeitarmos depende, muitas vezes, não delas em si mesmas, mas das circunstâncias que nos permitem aceitá-las ou rejeitá-las. Há aquela velha e estafada frase de Ortega y Gasset em que ele diz «Eu sou eu e a minha circunstância». Mas a frase não serve apenas para marcar a nossa identidade. Serve também para determinar o que queremos ou não queremos, o que temos ou não temos, o que fazemos ou não fazemos, fazendo-nos querer, ter ou fazer coisas que valorizamos menos ou não querer, não ter ou não fazer coisas que valorizamos mais, apenas porque uma circunstância a isso nos leva. Circunstância que, mais do que condição suficiente, se transforma assim em condição necessária.