12 abril, 2018

A VACA QUE RI


Aqui ao lado, na vila de Riachos, há um restaurante chamado "Xico da Vaca". Ouve-se o nome e tudo remete para um mundo paleolítico, um nome que bem poderia vir de Alves Redol, Manuel da Fonseca ou Fernando Namora. Um nome de um universo neo-realista que já não existe, de um autor que já ninguém lê. Mas se pensarmos no modo como, tanto a nível moral como legal, os animais têm vindo a adquirir um novo estatuto e novos direitos, pondo mesmo em causa o clássico antropocentrismo, este nome, substituindo o conservador  e especista preconceito segundo o qual são as vacas a pertencerem ao xicos e não os xicos às vacas, é de uma modernidade e cosmopolitismo incontornáveis. Consigo bem imaginar a admiração que qualquer urbaníssimo londrino, berlinense ou nova-iorquino defensor dos direitos dos animais e mobilizado pela leitura de filósofos como Peter Singer, irá sentir por uma terra com um restaurante deste calibre.