25 abril, 2018

25 DE ABRIL SEMPRE?



Não fiz de propósito mas calhou ter revisto, um a seguir ao outro, o primeiro e o último filme de Luchino Visconti: Ossessione (1943) e L'Innocente (1976). Por sinal, pela ordem contrária. Que me perdoem os nostálgicos da pureza neo-realista, mas a diferença entre os dois é abissal. Ossessione é apenas um bom filme, L'Innocente é absolutamente esmagador, sendo quase milagroso o dom de Visconti para dar uma grandeza operática a três actores associados a filmes menores. E diferença que não resulta necessariamente de serem o primeiro e o último filme. Há realizadores cujo primeiro filme é melhor do que o último e é bom lembrar ser Citizen Kane o primeiro filme de Orson Welles.

A distância entre os dois não está nos filmes em si mesmos, cujas datas até poderiam ser trocadas. Tendo o romance de Gabriele d'Annunzio, no qual se baseou L'Innocente, sido escrito em 1892, Visconti poderia tê-lo logo feito em 1943. Como teria sido possível que só em 1976 lhe tivesse ocorrido passar para a tela o romance O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes que dá origem a Ossessione. A distância entre os dois está no tempo, que prende cada um deles com as suas poderosas garras. Poderia Visconti ter feito Ossessione em 1976 tal como o fez em 1943? E poderia ter feito L'Innocente em 1943 tal como o viria a fazer em 1976? Impossível, pois fazer filmes em 1943 não é o mesmo que fazê-los em 1976, independentemente dos filmes que se fazem e de quem os faz. Tivesse Orson Welles feito Citizen Kane em 1976 e não seria o mesmo. Não só porque Orson Welles já não era o mesmo mas também porque a realidade (incluindo técnica) não era a mesma. Pensemos, avulsamente, sem critério cronológico, nalguns filmes do realizador italiano: Morte Em Veneza, Rocco e Seus Irmãos, Sentimento, Violência e Paixão, Os Malditos, Ludwig, Noites Brancas, Belissima, O Leopardo, A Terra Treme. Se os arrumarmos cronologicamente, percebe-se facilmente a evolução lógica e natural de todo o processo, a qual explica que, por exemplo, L'Innocente venha na sequência de Morte em Veneza ou Ludwig e não de Rocco e Seus Irmãos ou a Terra Treme que, por sua vez, vêm na sequência de Ossessione, sendo o contrário impossível.

Tal como perante os dois filmes de Visconti, eu comparo o Portugal de 25 de Abril de 1974 com o que vejo agora e percebo a impossibilidade da troca. Claro que a analogia com os filmes não está isenta de espinhas. Não faria qualquer sentido dizer que, em 1974, Portugal fosse apenas um bom país, em contraste com o soberbo Portugal de 2018. Refiro-me à evolução natural e previsível da sociedade portuguesa. Uma evolução que é não linear, com os seus altos e baixos, mas claramente gradual e irreversível. E, tal como Ossessione, o Portugal de 1974 poderia ser melhor ou pior, sendo discutível o quê, mas, como no filme, há coisas que eram como teriam de ser em 1974, em virtude de um conjunto de ligações causais (embora contingentes) que levaram a que assim fossem do mesmo que outras ligações causais levaram a que a França, o Brasil, a Índia, o Quénia ou a Bulgária de 1974 fossem o que fossem. E o mesmo se passa com o Portugal de 2018.

É neste sentido que se torna ocioso desejar que o 25 de Abril seja para sempre, ou perguntar se irá ser para sempre. É como perguntar se a Terra irá sempre girar em torno do Sol. Claro que a resposta pode ser negativa. Quando o Sol explodir, a Terra irá deixar de girar à sua volta. Mas se considerarmos apenas circunstâncias normais e previsíveis, sim, claro que irá sempre girar. Com o 25 de Abril passa-se o mesmo. Anormais situações catastróficas, naturais ou humanas, poderão levar a que a sociedade construída na sequência do 25 de Abril deixe de existir tal como a conhecemos. Porém, num quadro de normalidade social, política e económica, o 25 de Abril, enquanto conceito, tornou-se irreversível, sendo impossível, como nos últimos filmes de Visconti que já não poderiam ser feitos como foram os primeiros, voltar atrás.