04 março, 2018

PEDIGREE LITERÁRIO


«Se um jovem da nobreza rouba umas jóias, o acto é atribuído a uma cleptomania e fala-se dele com um filosófico sorriso, sem que passe pela cabeça de ninguém enviá-lo para uma casa de correcção, como se faria com uma criança esfarrapada que tivesse roubado uns nabos». George Eliot, Middlemarch

Sei que pareço um ladrão...                     Fazem a mesma figura                          Se o hábito faz o monge
mas há muitos que eu conheço                homens que vestem bons fatos;            e o mundo quer-se iludido,
que, sem parecer o que são,                    quando lhes cheira a gordura,               que dirá quem vê de longe
são aquilo que eu pareço.                        caem também como os ratos.                um gatuno bem vestido?

António Aleixo, Este Livro que vos Deixo


Parece-me inequívoca a sintonia entre a escritora inglesa e o engraxador algarvio no modo como ambos denunciam a falsa diferença entre o que podemos considerar roubos puros e impuros, em virtude das diferenças sociais de quem os pratica. A sintonia, porém, acaba, na forma como a denunciam. Se é verdade que há roubos com um certo pedigree e roubos simplórios, não é menos verdade que também a sua denúncia pode ter mais pedigree e estilo ou ser mais rude e simplória. A literatura é uma continuação da vida por outros meios.