05 março, 2018

O PESO E A LEVEZA



Em 1983, conheci um rapaz alemão que tinha vindo estudar para a minha faculdade. Antes de vir, sentira a necessidade de ir a Israel, não em passeio mas numa espécie de redenção por causa do que acontecera quatro décadas antes. Ir, enquanto alemão, filho e neto de alemães, só para conhecer e estar com israelitas e mostrar-lhes que ser alemão não significa dizimar judeus. Nesse mesmo ano, vieram visitar-me umas amigas alemãs que conhecera dois anos antes, no Alentejo. Entretanto, um familiar meu organizou uma almoçarada numa casa ali perto do castelo de Almourol e levei-as. Numa fase em que já tínhamos comido e bebido bastante, um rapaz com jeito para desenhar resolveu fazer uma caricatura de uma das alemãs, acrescentando-lhe, por piada, um bigodinho à Hitler e uma braçadeira com cruz suástica. A reacção dela foi avassaladora. Desata a chorar desalmadamente, um tremendo ataque de nervos, sendo bastante difícil provar-lhe a inocência do gesto. Já recentemente, ia numa rua de Hamburgo com um amigo alemão em cuja casa fiquei alojado, quando vejo uma placa numa obra com a palavra "Achtung". Por piada, disse-lhe que "Achtung" foi a primeira palavra alemã que muitos portugueses da minha geração aprenderam por causa dos livros de guerra aos quadradinhos. Ele, septuagenário, órfão de guerra berlinense, homem de esquerda, jornalista, ficou profundamente embaraçado, abanando a cabeça e com uma expressão no rosto de quem pede desculpa por ter sido essa a primeira palavra alemã que nós aprendemos. Como se compreende, acabei por ficar ainda mais embaraçado do que ele.

O rapaz alemão, uns anitos mais velho do que eu, será agora sexagenário; a rapariga alemã, da minha idade, não anda longe disso; este meu amigo de Hamburgo vai a caminho dos oitenta. É muito peso, muito peso nos ombros, ou antes, na consciência das pessoas destas três pequenas histórias. Um peso nada agradável, sendo a leveza bem mais simpática existencialmente. O problema é existirem seres humanos, existir o mundo, existir a história, existir o mal. Estas histórias fizeram-me lembrar a reflexão de Kundera em A Insustentável Leveza do Ser sobre o peso e a leveza. Eu não sei se a história se repete, seja lá como tragédia ou comédia, deixo essa discussão para os sábios que percebem do assunto. Sei, porém, que a repetição já tem uma longa história atrás de si. Diz Kundera que se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, os franceses olhariam hoje de maneira bem mais severa para Robespierre. Mas como ficou lá bem guilhotinado no século XVIII, olha-se para ele apenas como um nome, uma ideia. E num mundo onde não há repetição, tudo fica esquecido, tudo fica perdoado. A actual geração alemã já consegue ter uma relação bem mais leve com a sua história. Isso é bom, claro. Olham para o nazismo e perguntam: "O que temos nós que ver com aquilo?", tal como portugueses da minha geração perguntam o que têm eles que ver com os crimes da guerra colonial ou a escravatura. Porém, se o excesso de peso nos pode prender demasiado ao chão da realidade e comprometer-nos excessivamente com essa realidade, o excesso de leveza também nos pode fazer sair dela, levando as ideias, as emoções, os sentimentos, os estereótipos, os preconceitos, os ressentimentos a pairarem demasiado livremente pelo ar, podendo fazer com que a realidade se torne de novo insustentável.