03 março, 2018

NUMA RUA DE TORRES NOVAS, NUMA RUA DO MUNDO

Ontem, numa rua de Torres Novas, ia devagarinho um carro à minha frente para tentar estacionar. Nada de anormal, não fosse uma série de manobras disparatadas que me fizeram perder a calma, lançando mentalmente pragas sobre condutores que só servem para atrapalhar as vidas de pessoas normais, entre as quais, obviamente, me incluo. Entretanto, percebo que é uma mulher e, quando chega finalmente o tão desejado momento de ultrapassar, reconheço, meio envergonhado comigo mesmo, uma funcionária da minha escola com quem simpatizo bastante e costumo dar dois dedos de conversa. Como seria de esperar, perdoei. Afinal, não era mais um condutor como milhões de outros condutores, um simples ser humano, um mero cidadão do mundo, enfim, uma abstracção rodoviária com dois braços e duas pernas para conduzir, ainda por cima, de modo desastrado. Não, era uma simpática funcionária da minha escola que, num ápice, e como que por milagre, passou de inimiga a amiga, de gigantesco alvo da minha raiva a pequenino alvo da minha condescendência.

Isto que se passou foi comigo mas arrisco dizer que o mesmo se passaria com toda a gente, retirando daqui duas lições. Por um lado, não há teoria ética, por muito elegante, sofisticada ou verosímil que seja, a resistir a este choque de primária e elementar realidade tribal. Por outro, apesar da sua singeleza, serve ainda para ajudar a perceber a dificuldade de toda uma ética que se deseje global ou cosmopolita. Podemos ser todos iguais cidadãos perante a lei ou a nossa razão, o que até acaba por resultar quando o trânsito flui e todos chegam tranquilamente ao seu destino. Mas quando surgem engarrafamentos, entupimentos e pessoas que atrapalham a nossa tranquilidade e mecânica rotina, lá se vai todo o encanto da imparcialidade moral. Esta segunda lição, tem, como facilmente se percebe, um forte sentido político, tendo condições para nos dar fortes preocupações nos tempos mais próximos, como já terá dado noutros de bem triste memória.