07 março, 2018

FILHOS DE UMA DEUSA MENOR



Já perdi a conta às pessoas que me disseram ter visto a Mona Lisa e ficaram muito desiludidas. Enfim, chegaram lá e não viram nada de especial: apenas a Mona Lisa. Uma Mona Lisa igual à Mona Lisa que já conheciam, ficando sem perceber por que razão chegaram lá e não viram nada de especial e por que razão é a Mona Lisa "a" Mona Lisa. Parece assim que esperavam uma revelação e, afinal, não houve revelação nenhuma. Apesar de ser "a" Mona Lisa, a Mona Lisa é só mesmo a Mona Lisa.

Porém, grande parte dessas pessoas tirará fotografias à Mona Lisa, algumas delas farão mesmo selfies com a Mona Lisa. E daí? Que importância tem não perceber a importância da Mona Lisa? Ou o facto de haver centenas de Monas Lisas reproduzidas que tornam supérfluo o acto de puxar da máquina para mais uma reprodução das reproduções que já toda a gente viu? O que importa, sim, é ter estado em frente à Mona Lisa, ter visto a Mona Lisa, cada um ter o seu histórico e certamente único momento Mona Lisa, ainda que no meio de uma turba ululante por estar a ver a Mona Lisa, ou a grande distância dela e separada dela por um vidro, como quem visita alguém numa prisão de alta segurança. Acontece que a Mona Lisa não é um quadro. A Mona Lisa é um bezerro de ouro pintado numa tela, à volta do qual o povo canta e dança no sopé da montanha em cujo cimo o grande, o enorme Leonardo pintou algumas das mais belas pinturas de todos os tempos.