06 fevereiro, 2018

PEQUENO MUNDO

Marín |1913

Quanto mais velho estou menos o mundo me interessa. Não é estar alienado dele. Acontece apenas que se tornou demasiado grande, desmedido, esmagador. Hoje o mundo é quase literalmente todo o mundo, oferecido diariamente, hora a hora, sobre tudo e sobre nada., de tal modo que nós já não estamos nele, já não o pisamos, é antes ele que nos pisa, que entra em nós sem pedir licença, esmagando os contornos reais da nossa existência, como um rio que deixa de desaguar no oceano para ser o imenso oceano a alagar com violência o sereno leito do rio. A vida é demasiado preciosa para perdermos tempo com a inutilidade. Não a bela e preciosa inutilidade da finalidade sem fim mas a fútil inutilidade. Se num supermercado tivermos apenas 6 minutos e 27 segundos para procurar meia dúzia de bens essenciais, não iremos perder tempo a vaguear entre prateleiras, ao som de uma indolente música ambiente. Mas é isso que acontece com o que está sempre a chegar de um mundo que se tornou infinito e nos desconcentra do essencial. É que se o mundo é infinito, a nossa vida não o é, sendo uma perda de tempo andarmos entretidos com a espuma que se dissipa mal a onda se estende pela areia. É bom estar informado sob pena de se ficar mesmo alienado do mundo. Mas uma coisa é estar informado sobre o que se passa no mundo, outra é sermos engolidos por ele. E se o mundo se tornou infinito, eu quero continuar livremente a viver a finitude que me cabe e me compraz.