15 fevereiro, 2018

OLHA O ROBOT

Woody Allen|Sleeper

Como abomino o acordo ortográfico, continuo (ou pelo menos tento) a escrever um Português decente. Porém, no que diz respeito a escrever coisas que envolvam alunos, como apontamentos, testes ou escrever no quadro, por razões óbvias, sigo o que foi imposto por meia dúzia de irresponsáveis que resolveram adulterar a nossa língua. Hoje, na escola, estive a escrever uns apontamentos para dar numa turma. Entretanto, e com o habitual sentimento de repulsa, escrevo a palavra “perspetiva” cuja fonética me lembra Alberto João Jardim. Escrevo-a e logo automaticamente o computador a altera para “perspectiva”. Muito a custo por ter de desmantelar a palavra que considero ser a correcta, escrevo de novo “perspetiva”, a qual volta a ser alterada. Só à terceira o computador vacila, deixando-a ficar como eu estava a escrevê-la mas, atenção, sem se esquecer de a deixa sublinhada para me avisar de que estou a dar um erro ortográfico, como efectivamente, acredito que estou.

Considero-me até certo ponto uma pessoa normal e sei que não é suposto uma pessoa normal sentir empatia perante uma máquina acéfala como é o caso de um computador. Admito tratar-se de uma coisa estúpida como tantas outras em mim mas foi precisamente isso que senti, do mesmo modo que embirro com um computador no qual escrevo "perspectiva" e logo muda para "perspetiva". Senti-me compreendido por ele, apoiado por ele, sei lá, como duas pessoas que se acabam de conhecer e descobrem que gostam dos mesmos filmes, dos mesmos livros, dos mesmo quadros, que pensam da mesma maneira ou que sofreram na vida coisas parecidas. Ora, provavelmente é isto que vai acontecer num futuro próximo quando passarmos a interagir tanto com robots como com seres humanos. Saberemos sempre que um robot é uma máquina programada para fazer e dizer certas coisas mas acabaremos por projectar neles os nossos sentimentos e ideias, de modo a sentirmos empatia por robots dos quais gostamos ou falta dela pelos de que não gostamos. Um pouco como já acontece com a relação fetichista com certas marcas ou produtos como se de pessoas se tratasse, ou como terá acontecido com filósofos que embora considerassem mecânico o comportamento dos animais, nem por isso deixavam de sentir amizade e afecto por eles. Os alvos dos afectos podem mudar bastante. Mas os afectos e os seus mecanismos serão sempre os mesmos, por muito absurdos que possam parecer.