19 fevereiro, 2018

O REALIZADOR FANTASMA


Fui ao IMDb para inserir e classificar o filme Linha Fantasma e lembrei-me de rever toda a lista de filmes que já lá inseri e pela minha ordem decrescente de classificação. Nessa lista vê-se, lado a lado, a nossa classificação e a classificação média de cada filme, tendo então reparado na minha tendência para classificar melhor os filmes do que a média. O que bate também certo com o facto das minhas apreciações serem habitualmente mais favoráveis do que as dos críticos, havendo mesmo casos em que críticos arrasam filmes que considerei excelentes, deixando-me até por isso meio atordoado. Ainda agora com Linha Fantasma, filme que só não considero soberbo por uma questão de pudor mas, vá, quase soberbo, há dois críticos do jornal Público que o consideram apenas razoável, críticos de tal modo exigentes que só raras vezes vêem um bom filme e raríssimas vezes um excelente. Como explicar esta discrepância? Estarei eu a projectar o meu habitual bom feitio na maneira como aprecio um filme, ainda que esteja cheio de defeitos? Ou será porque entendo pouco de cinema, sendo por isso facilmente iludido por maus filmes que se fazem passar por bons, ardil a que os críticos são imunes?

Provavelmente, nem uma coisa nem outra. Talvez o crítico seja alguém que assume excessivamente a sua especializada e técnica função, levando o seu olhar clínico ao limite, de maneira que acaba sempre por encontrar defeitos nos filmes, excepto nos clássicos, os quais o tempo tornou bacteriologicamente puros. Fazem-me lembrar aqueles polícias que mandam parar um carro e no caso de quererem mesmo multar o condutor encontram no carro um qualquer pretexto para isso. Não vou ser cínico ao ponto de subscrever aquela frase que diz haver ruas com nomes de escritores, pintores ou músicos mas nenhuma que tenha o nome de um crítico. Mas quem sabe se não serão tantos críticos de cinema, cineastas frustrados que usam a crítica como compensação, na qual, por se tratar de uma metactividade que não tem de ser posta à prova como um filme, existe uma total liberdade de pensar e falar, tomando como referência uma perfeição que raramente existe. Ora, esta não é a minha maneira de ver um filme. E tanto não é que ainda ontem vi um que, apesar de não ser nada de especial, me proporcionou duas horas bem passadas, o suficiente para considerá-lo bom. E se há coisa que me proporciona duas horas bem passadas, só pode mesmo ser uma coisa boa. E se calhar foi mesmo para isso que o cinema nasceu.