18 fevereiro, 2018

O CORPO DAS PALAVRAS

John Singer Sargent | Nonchaloir

«A actriz era uma provençal de olhos escuros e perfil grego, com umas formas roliças e majestosas; tinha o tipo de beleza da mulher que já em jovem exibe uma doce e matura plenitude, e a sua voz era um suave arrulho» George Eliot, Middlemarch

Dizia há tempos uma aluna que a palavra "altruísmo" lhe sugeria, sem saber porquê, qualquer coisa de negativo. Na mesma aula, alguém disse que chamar "estulto" a uma pessoa soava a qualquer coisa de elogioso. Há dias, outra aluna associou a palavra "hedonismo" a aborrecimento e coisas enfadonhas. Estas situações fizeram-me reparar melhor na nossa relação com aquelas palavras que são desconhecidas mas às quais desejamos (ou precisamos) atribuir um significado, tendo como única pista o seu impacto fonético que, na verdade,  nada quer dizer, pois, como ensinou Saussure, a relação entre o significante (som e grafia) de uma palavra e o seu significado, é arbitrária, como bem se pode ver nas palavras "janela", "window", "fenêtre", "ventana" ou "fenster".

Esta tentativa de relação com palavras que não conhecemos lembra o modo como os animais exploram uma coisa desconhecida, sobretudo através do olfacto, para avaliar a sua segurança, nomeadamente na alimentação. As palavras parecem ser organismos vivos, conjuntos de letrinhas com vida própria, as quais farejamos foneticamente e graficamente para daí, como que por magia, tentar retirar um significado. Só que a coisa não é assim tão simples, do mesmo modo que há queijos que cheiram mal mas que sabem bem e perfumes que cheiram bem mas horríveis no paladar, também há palavras agradáveis ou elegantes que sugerem coisas feias, como palavras feias que significam coisas agradáveis e elegantes.

Passei por essa experiência com a palavra "arrulho" neste trecho de Middlemarch: uma palavra feia mas que exprime beleza, elegância, harmonia. Explica o Priberam que "arrulho" significa várias coisas: canto das rolas, canto com que se adormecem crianças, ruído suave de água corrente ou, em sentido figurado, carícia, ternura. Tudo coisas agradáveis. Porém, a palavra é horrível, sendo o seu impacto estético parecido com o de um pedaço de comida que um animal fareja com repulsa. "Arrulho" lembra palavras ásperas e que nada devem à beleza, como porrada, cachaporra, carrada, curral, enxurrada, entulho ou perro. Aliás, com os seus sons "rr" e "lh" quase fica uma mistura de porrada com entulho. O problema não são esses dois sons individualmente mas a mistura dos dois. Palavras como "Chilreio" ou "sussurro" têm o som "rr" mas são bonitas e apaziguadora, chegando a segunda a ter mesmo uns laivos de sensualidade. "Mergulho" ou "galho" têm o som "lh" e são elegantes. Agora, "arrulho" é tão feia que chega a transformar a expressão "suave arrulho" numa espécie de contradição e, neste contexto, completamente desajustada ao retrato que está a ser traçado daquela mulher, apesar do agradável impacto estético do significado. Enfim, também na linguagem as aparências contam, sendo o seu exterior tão importante quanto a sua alma, o que faz com que a bela alma de uma palavra se possa perder num corpo feio.