04 fevereiro, 2018

NUMA MANHÃ DE MAIO



Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Maio. Na prosaica região de Middlemarch, nem sempre o mês de Maio era cálido e soalheiro, e nessa manhã em particular um vento frio arrastava as flores dos jardins vizinhos para os montículos verdes do cemitério de Lowick. Umas nuvens rápidas só de quando em quando permitiam que um raio de Sol incidisse sobre qualquer objecto, belo ou feio, que por acaso se encontrasse ao alcance da sua chuva dourada.

Eu leio esta passagem tão arrebatadoramente bela que preciso de a ler outra vez. E outra vez. E outra vez, e ainda assim com pena de a deixar. Cheguei até a lê-la mais vezes e a minha vontade era mesmo decorá-la para poder ficar com ela. Isto levou-me até aos diferentes modos como gerimos o tempo na relação com um texto e com uma pintura. Perante os quadros que mais amo fico por lá o tempo que for preciso. Um quadro é um mundo individual, sendo nessa condição que o enfrentamos, e quando passamos para o quadro seguinte na parede do museu, significa que esgotámos o mundo anterior para darmos entrada noutro, que pode ou não ser interessante, onde nos podemos ou não demorar. Com um texto não é isso que acontece. As palavras, frases ou parágrafos são parte de um todo que é um conto ou um romance, daí fazermos uma leitura contínua até chegarmos ao fim. Claro que certas passagens podem ser lidas mais devagar e relidas mas a pulsão da leitura empurra-nos para o que vem a seguir, o que não acontece com o quadro pendurado entre outros quadros. Esta passagem do Middlemarch surge na sequência de uma anterior ao mesmo tempo que antecede uma outra, é é essa sequência que faz fluir a leitura desde o princípio até ao fim da obra. Até porque precisamos de chegar a esse fim. Claro que nos interessa o processo, frase a frase,  parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo, é para isso que lemos o livro. Mas, cá está, o que existe antes só existe em função do que vem depois, daí a pressão para continuar.

Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Maio. A minha experiência desta frase é diferente da que teria no caso de ler Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Janeiro ou Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Agosto. O nome de um mês não passa disso mesmo: um nome. Porém, um nome que condensa um conjunto de sensações e experiências. Sintra ou Cacém, Bussaco ou Bairrada são também apenas nomes. E mesmo sem haver qualquer referência ou descrição do que possa estar ligado a eles, cada um dá origem a um diferente estado de consciência, tratando-se de uma experiência que nem é do domínio conceptual nem do domínio sensível. O mesmo acontece com a frase Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Maio, mas também com o pedaço de texto que se lhe segue, tão fortemente visual mas sem ter nada de visual como acontece quando vemos a realidade a olho nu ou uma imagem fotograficamente realista.

A natureza ambígua desta passagem teve o dom de me provocar uma experiência idêntica à dos meus quadros impressionistas preferidos. Eu olho para um desses quadros, que sendo esplendorosamente visuais me empurram para uma intuição da realidade que ultrapassa a mera sensação na sua mais básica materialidade que ocorre não só quando olho directamente para a minha rua, para a minha escola ou para o banco onde paro para levantar dinheiro mas igualmente para um jardim ou para uma paisagem rural, tão presentes na pintura impressionista. No caso da pintura, a sua evanescência leva-me para um terreno que já não é apenas visual mas da ordem de uma experiência sensorial interna, mais formal, portanto. Ora, é precisamente isto que também acontece perante uma passagem como esta de Middlemarch com a sua ressonância pictórica, aproximando-a assim, não sem volúpia, de certas pinturas impressionistas, explicando assim o meu desejo de a ler durante tanto tempo como aquele que, em paredes de museus, dediquei aos quadros que mais amei.