14 fevereiro, 2018

NA CAMA COM...D. MANUEL CLEMENTE


Uma pessoa não racista critica alguém de outra raça, por um qualquer motivo avulso, da mesma maneira que criticaria uma pessoa da sua raça. Se, todavia, for uma pessoa racista a fazê-lo, ainda que pelo mesmo motivo da anterior, teremos de fazer outra leitura. Já não se trata de um simples juízo que possa ser entendido in media res, mas de um juízo que nos obriga a ir até bem mais a montante para o associarmos a um conjunto de crenças, valores, emoções e sentimentos, que o torna ideologicamente sustentado. E, naturalmente, nada inocente.

Serve esta comparação para o recente apelo à abstinência sexual dos católicos recasados, por parte de D. Manuel Clemente. Mais do que uma simples ideia, posição ou avaliação de um dos mais naturais e universais comportamentos humanos, trata-se de um sintoma. E todo o discurso oficial da igreja católica relativamente ao sexo é um sintoma de uma dimensão latente: uma moral sexual mais católica e teológica, que começa com S. Paulo e os padres da Igreja com Santo Agostinho à cabeça, do que cristã e evangélica. Uma moral que não gosta de sexo, do corpo, do erotismo, da sensualidade, do prazer sexual. Uma moral que, como se pode ver na 1ª Carta aos Coríntios, defende a castidade mesmo entre os casados, os quais só o deverão ser porque mais vale "casar-se do que abrasar-se". Uma moral para a qual "o corpo é templo do Espírito Santo e a este se deve entregar", e para a qual "o desejo de carne é morte" e "inimizade para com Deus". Uma moral que, ao contrário do que acontece na religião protestante ou ortodoxa, obriga o seu clero a uma absoluta castidade e que toma como exemplo de virtude moral e social, homens e mulheres que viveram, e disso orgulhosos, em plena rejeição do corpo, ou que passaram de uma vida segundo o corpo para uma outra segundo o espírito, como foi o famoso caso de Santa Maria Egipcíaca, enfim, uma moral que estigmatiza a expressão clara da sexualidade  mas que o faz de um modo sublimado e neurótico como acontece em muita pintura ou literatura religiosa, sobretudo mística.

Claro que a igreja católica não poderá deixar de ter uma moral sexual que serve para louvar uma sexualidade sã, baseada no amor entre um homem e uma mulher, que impede uma vitória do corpo sobre o espírito, contribuindo assim para a auto-realização do casal verdadeiramente cristão e feliz. Claro que para isto contribui o facto de, naturalmente, sem coito não existir multiplicação, o que obriga a um certo conformismo perante a fatalidade de um corpo sexuado, do qual temos de nos lembrar de quando em vez para ter de cumprir a sua função. E é neste contexto que temos de perceber esta moral defendida por um certo clero que teima em ser mais católico do que cristão. Vale a pena regressar a S. Paulo, desta vez à Carta aos Romanos: "A lei é pecado? De modo algum! Mas eu não conheci o pecado senão por meio da lei. É que eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse «Não cobiçarás»".  Dura lex sed lex.