08 fevereiro, 2018

HETERODOXIA RADICAL

Robert Hutinski

Tenho um daqueles alunos que mal começo a explicar qualquer coisa já está a levantar o braço para intervir, normalmente para discordar. Embora por vezes se torne um bocadinho cansativo e até maçador, prefiro esta incontinente dinâmica céptica à pasmaceira de uma abulia epistémica. Recentemente, porém, durante várias aulas sobre a ética kantiana, não abriu a boca, mudez que muito estranhei, pensando até que se tratasse de algum problema pessoal ou assim. Na última aula voltou então a dar sinais de vida para, com ar de revolta e indignação, dizer que não gostou nada desta matéria. Considerei a reacção normal pois não é obrigatório gostar de Kant ou do assunto em questão. Não resisti a perguntar-lhe, não cinicamente, mas genuinamente interessado, por que razão não estava, pela primeira vez, a gostar de uma matéria. Foi então com o mesmo ar de birra que lá me explicou que não gostava de Kant pela simples razão de nada ali encontrar de que pudesse discordar, enfim, de tudo se encaixar na perfeição. Em suma, não gostava de Kant por estar completamente de acordo com Kant. 

Achei esta reacção não só extraordinária como filosoficamente comovente. Há uns bons anos, tive um aluno que, num teste, escreveu um longo texto no qual dava a sua opinião sobre um certo assunto, concluindo-o dizendo que concordava com a sua própria opinião. Ora, nada tenho contra as pessoas que concordam com as suas próprias opiniões. Mas serei obrigado a admitir, dando-se o caso de ter mesmo de concordar com a minha opinião, que é bem mais estimulante o desespero por não poder discordar da sua opinião do que concordar com ela, desespero esse que estará no mesmo plano do espanto como base da Filosofia.