21 fevereiro, 2018

FORÇA INTERIOR


Na sua crónica de hoje, no Público, Rui Tavares, referindo-se a Durão Barroso, recorre à expressão "É mais forte do que ele". Expressão sugestiva, à qual eu próprio recorro muitas vezes. Por exemplo, não querer comer mais chocolate e não ser capaz de parar, e então lá sai: "Pois, é mais forte do que eu" ou encontrar uma pessoa chata no supermercado e deixar de a ouvir enquanto vai falando, sabendo não ser correcto mas, raios, "É mais forte do que eu!".

Mas trata-se de uma expressão filosoficamente incorrecta. Imaginemos uma pessoa que se vai suicidar no Sítio da Nazaré e, mal se atira, arrepende-se. Aqui, sim, podemos dizer que o que impediu evitar a queda, "foi mais forte do que ela": uma lei da Física. Uma pessoa decide viver sem comer e está um, dois, três dias sem comer. Ao quarto dia, esganada com fome, decide comer. Neste caso também poderá dizer que "foi mais forte do que ela", uma vez que se trata de uma imposição da natureza. Mesmo no caso de um toxicodependente que deseja largar a heroína mas sem o conseguir, atendendo ao forte grau de amarras químicas que o prendem à droga, vejo razão suficiente para poder dizer que" é mais forte do que ele".

Mas na esmagadora maioria das situações não é isso que acontece. Falar de uma "força maior do que nós", implica essa força não fazer parte de nós. A força é a força e nós somos nós. Se o fizermos, estamos a recorrer a uma dimensão analisada por um conhecido filósofo do século passado chamado Jean Paul Sartre: a má-fé. A má-fé serve para dizermos aos outros ou a nós próprios que o que fazemos não resulta da nossa liberdade de escolha, não sendo nós, por isso, verdadeiramente responsáveis pelo que fazemos (ou pelo que não fazemos, o que também acaba por ser uma forma de fazer). Mas não é bem assim pois somos nós, nós mesmos, que tanto desejamos uma coisa como a sua contrária, sendo a tal "força maior do que nós" também parte de nós, mais concretamente, a parte de nós que deseja X e, por azar, ou sorte, sabe-se lá, é mais forte do que a parte de nós que não o deseja.