05 fevereiro, 2018

CAUSAS E EFEITOS


A inteligência humana, sendo um bem inestimável, não se livra dos seus grãos de areia. Um dos mais comuns é confundir causas e efeitos: se o italiano que atacou seis africanos tinha em casa um exemplar do Mein Kampf quer isso dizer que ler o Mein Kampf leva as pessoas a terem vontade de ir para a rua matar africanos em vez de irem ao Mcdonald's ou para um jardim namorar. Mas não é assim. O italiano foi ler o Mein Kampf  porque já teria, ou perto disso, vontade de matar africanos, não querendo isto dizer que sentir de repente um desejo de ler o Mein Kampf, implique já um impulso para matar africanos. Não faz pois sentido proibir obras, alegando que a sua leitura leva certas pessoas a quererem matar outras. Por essa ordem de ideias deveria proibir-se o Alcorão por haver terroristas que o têm em casa, proibirem-se romances policiais por poderem dar ideias a pessoas com uma certa inclinação para matar outras ou proibir Bruno de Carvalho de falar ou escrever.

Há neste momento em França uma grande polémica por causa da publicação de obras de autores com ideias anti-semitas e colaboracionistas como Céline e Maurras, tendo até já levado a Gallimard a cancelar a publicação dos panfletos anti-semitas do primeiro. O que até se compreende num país que não se livra de ter no armário alguns esqueletos, como se compreendem ainda as delicadas pinças com que têm de lidar as práxis finas dos alemães sempre que se tratem de assuntos nazis. Mas ter uma consciência histórica não significa agir historicamente como acontece com neo-nazis ou supremacistas brancos. O que acontece é haver pessoas que recorrem à história para legitimar anacrónicas e absurdas ideias e motivações. Creio mesmo que uma consciência histórica, mais do que perniciosos efeitos, terá um papel pedagógico, desde que criticamente enquadrado. Razão tem a ministra da cultura francesa quando diz que comemorar não é celebrar, sendo bem esclarecedores os exemplos que dá. Comemorar é simplesmente trazer à lembrança. Aliás, o filósofo Martin Heidegger (olha quem!) no seu discurso durante uma cerimónia comemorativa do compositor, seu conterrâneo, Conradin Kreutzer, distingue as duas coisas quando diz "Agradeço ainda, em especial, a gratificante missão que foi confiada de proferir um discurso comemorativo nesta homenagem que hoje se realiza". E mais adiante: "Será a festa uma comemoração? Para que haja comemoração (Gedenkfeier) é necessário que pensemos (denken). [...]Os organizadores introduziram no programa um «discurso comemorativo» cuja função é ajudar-nos expressamente a pensar no compositor homenageado e na sua obra".

Ou seja, ele vai comemorar no meio da própria homenagem, significando isto que se pode homenagear sem comemorar, como se pode comemorar sem homenagear, como acontece quando se comemora o nascimento de Hitler ou a última vez que o Sporting foi campeão. Também ler o Mein Kampf, Céline ou Maurras, no sentido de os conhecer e pensar (denken) sobre eles, comemorando-os (Gedenkfeier) está muito longe de os homenagear e celebrar. Claro que os livros podem matar mas matam tal como os automóveis mal conduzidos ou as árvores nas ruas cuja segurança não é avaliada pelos responsáveis. Deve-se deitar fora a água do banho mas também evitar que o bebé vá com ela.