02 fevereiro, 2018

AVÔ DE MIM MESMO




Numa cena do filme Conto de Verão, de Eric Rohmer, há uma rapariga que pergunta a um rapaz (ambos na fotografia) se ele vai sair à noite. Ele diz que não, pois tem de ficar em casa à espera de um telefonema importante. Repito: fica em casa porque espera um telefonema importante. Noutra cena, o mesmo rapaz, questionado sobre o que se passa com uma determinada rapariga que não está presente, diz não saber nada dela mas que está à espera de um postal para saber novidades. Repito: está à espera de um postal para saber novidades. Por causa disto, lembrei-me daquelas vivências que os avós contam aos netos ou os tios aos sobrinhos sobre o tempo em que eram jovens, provocando nos últimos um sentimento de perplexidade. Eu, que passei por situações iguais às do filme mas que entretanto me habituei a já viver num mundo completamente diferente, pensando agora nelas à distância, sinto-me uma espécie de avô ou tio de mim mesmo.