20 fevereiro, 2018

ARGENTEA MEDIOCRITAS


Dá a sensação de que para muitos críticos de cinema todo o filme começa culpado até possível prova em contrário à medida que vai decorrendo. O problema nem seria muito se não se desse o caso de haver quase sempre alguma resistência na descoberta desse contrário, levando fatalmente a um excesso de rigor na avaliação dos filmes. Eu tenho uma visão contrária: tentar sempre ver o lado positivo do filme, acusando-o apenas em caso de flagrante delito cinematográfico. Tal bonomia crítica não invalida, porém, o reconhecimento de filmes cuja qualidade deixa muito a desejar. Por exemplo, o filme O Jovem Karl Marx (Raoul Peck, 2017). 

Embora a experiência me faça ter alguma prudência face a filmes biográficos e históricos, comecei a vê-lo com a mente aberta. Ainda para mais ajudado pelo entusiasmo de, na faculdade, ter trabalhado bastante textos do “jovem Marx” e lido sobre a sua vida. Mas aconteceu o costume: a sensação de, mais do que um filme, estar a ver um daqueles documentários biografados do canal História ou Odisseia. O realizador limita-se a pegar em wikipédicos momentos da vida dos jovens Marx e Engels, transformando-os depois numa narrativa cinematograficamente pobre. Um filme que assim se torna um bocadinho como um livro de banha desenhada da Ilíada ou da Odisseia, uma coisinha que dê assim para ficar com uma ideia da história sem dar muito trabalho e perder grande tempo.

Ainda assim, tento ser imparcial, esforçando-me por distinguir o que podendo ser mau para mim, pode ser bom para outros, do mesmo modo que o que é bom para mim pode ser mau para outros. Por exemplo, o filme da minha vida é o Menino Selvagem, de François Truffaut, reconheço haver fortes motivos pessoais e subjectivos que fazem com que assim seja, não lhe atribuindo por isso o estatuto de filme excepcional. É excepcional, sim, mas para mim. Pelas mesmas razões, apesar de considerar O Jovem Karl Marx bastante fracote, reconheço que está longe de outros filmes inequivocamente maus, podendo nele encontrar aspectos positivos, ainda que não para meu usufruto pessoal. Isto levou-me a pensar num possível critério de avaliação que consiga separar processos subjectivos e objectivos de modo a conseguir uma total imparcialidade. 

Uma boa possibilidade seria adaptar a primeira fórmula do imperativo categórico kantiano, resultando uma coisa do género: “Vê apenas o filme segundo uma avaliação tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma avaliação universal”. O problema um filme ou qualquer objecto artístico conseguir, ao contrário da moral, harmonizar os interesses individual e colectivo. Uma pessoa pode ter um motivo forte para roubar um objecto, o qual é incompatível com o interesse geral da humanidade, e, por essa mesma razão, deixar de o roubar, conseguindo sobrepor o seu lado racional ao seu lado mais instintivo ou emocional. Mas como conseguir tal harmonia quando se trata de uma realidade na qual haverá sempre elementos subjectivos e pessoais impermeáveis a justificações racionais? Um crítico, apenas concentrado em aspectos técnicos do filme, pode considerá-lo obra-prima mas a maioria das pessoas detestá-lo, como pode acontecer o contrário. Voltando a O Jovem Karl Marx, eu posso não ter conseguido chegar ao fim do filme (de facto, não consegui) mas haver pessoas que o tenham apreciado bastante, ainda que movidas por um fascínio histórico, ideológico ou até idolátrico. Daí podermos objectivamente considerar se uma acção é ou não moralmente boa ou, noutro contexto, dizer se uma ponte está bem ou mal construída. O que não acontece com o filme uma vez que este pode ser o filme que cada um quer que seja e vê-lo desse modo, o que não acontece com certas acções e obras de engenharia (ao contrário da Arquitectura). Por isso, ao classificar um filme como este, sinto algum pudor em destruir a sua credibilidade, abrindo uma porta para que não seja, à partida, rejeitado. De 0 a 10, no IMDb, dei-lhe 6. E assim durmo com a consciência tranquila.