03 fevereiro, 2018

AQUELAS MÁQUINAS!



























Irmãos Limbourg 
Les Très Riches Heures du Duc de Berry


E por falar em avô...Hoje, no mercado, conversando com a senhora a quem compro a maior parte dos legumes e hortaliças, descobrimos que ambos trabalhámos numa fábrica de tomate para onde muitos jovens aqui da zona iam cerca de dois meses, no Verão, durante a campanha do tomate. No meio da conversa, disse-me que com o primeiro dinheiro que ganhou comprou uma máquina de costura; disse-lhe eu que com esse dinheiro comprei uma máquina de escrever. Entretanto, enquanto ela começou a trabalhar na coisas da agricultura, eu fui para a universidade. Hoje, ela está no lado de lá da banca a vender os legumes e hortaliças que produz, enquanto eu estou do outro lado a comprá-los para comer no meu apartamento. Muita coisa, portanto, nos separa. Mas pelo menos uma coisa nos une: ambos, com o primeiro dinheiro ganho lá na fábrica, comprámos duas belas máquinas que praticamente deixaram existir, tornando-se peças de museu, as quais, quando eram usadas, levavam a pequenos gestos que o corpo, entretanto, esqueceu, pequenos rituais técnicos que também desapareceram com a sua natural obsolescência, máquinas ainda cujos sons que enchiam o silêncio doméstico deixaram de se fazer ouvir, havendo assim hoje pessoas que viverão toda a sua vida sem nunca terem dado pela existência daquelas máquinas. Vivíamos e vivemos, eu e aquela senhora, em mundos diferentes, sim, mas, ao mesmo tempo, viveremos para sempre ligados por um mundo que, quando ambos morrermos, deixará definitivamente de existir.