01 fevereiro, 2018

A MORTE SAIU À RUA


Em abstracto, não consigo dizer se actos como matar ou roubar são maus, e se actos como ajudar um amigo ou dizer a verdade em vez de mentir são bons. Entrar numa escola para matar crianças inocentes é mau mas matar a pessoa que entra na escola para matar crianças inocentes é bom. Um banqueiro roubar os seus clientes é mau mas roubar dinheiro a uma pessoa que assaltou um banco para depois o dar a uma instituição social é bom. Se ajudar um amigo significa ajudá-lo a matar o pai para receber a sua herança, trata-se de um acto mau. E o mesmo acontece quando dizer a verdade implica denunciar o paradeiro de uma família judia às SS.

E o que dizer então de matar um rei? Em abstracto, também não consigo dizer se é bom ou mau. Se o rei for um tirano horrível, responsável por um regime opressivo e cuja morte pode conduzir à libertação do povo, a sua morte pode ser vista como um bem. Matar reis ou políticos em geral não é bonito de se ver mas também se pode dar o caso de se terem posto a jeito para tal. Não foi isso que aconteceu no 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço. O que aí aconteceu foram dois bárbaros homicídios, perpetrados por dois fanáticos que se julgavam incumbidos de uma missão superior, e aos quais estavam associados criminosos como  Aquilino Ribeiro, que esteve na organização da matança, ou Afonso Costa que chegou a dizer que por muito menos do que fez D. Carlos às finanças da pátria, cortaram a cabeça de Luis XVI (nem quero pensar na quantidade de políticos portugueses recentes que já teriam ido à guilhotina). E para além da vergonha nacional associada a este dia negro da nossa história, não menos vergonhoso é continuarmos a ter republicanos que perante o facto assobiam para o ar e outros que têm mesmo o desplante de continuar a olhar para os assassinos, materiais ou morais, como gente de bem e a quem a pátria deve bastante. Como se a bagunça republicana que se lhe seguiu pouco depois, e até 1974, fosse alguma coisa de que nos pudéssemos orgulhar. Diz a canção, a propósito de uma outra morte, que "um dia rirá melhor quem rirá por fim/ Na curva da estrada há covas feitas no chão/ E em todas florirão rosas duma nação". No que à morte do dia 1 de Fevereiro diz respeito, não foi bem assim.