31 janeiro, 2018

VIDA PARA ALÉM DA MORTE

Ariko  Inaoka

Num daqueles encontros de supermercado que dão para dois dedos de conversa, diz-me uma pessoa, a propósito da sua boa vida de reformado, não acreditar noutra vida para além desta. Feitas as despedidas, ficou-me a remoer a frase "não acredito na vida para além da morte", deixando-me com uma sensação de desconforto.

Há pessoas que acreditam e outras que não acreditam numa vida para além da morte. O facto de serem crenças opostas não significa que se trate uma mera questão de opinião, permitindo que ambas tenham razão. Vejamos, se houver pessoas que acreditam que a laranja tem vitamina C e outras que não acreditam, não vamos dizer que se trata de uma mera opinião. Não, o que acontece é uma acreditar numa coisa verdadeira e outra acreditar noutra que é falsa. Dir-se-á que neste caso é possível provar quem tem razão, o que já não acontece com a questão da vida para além da morte, a qual permite assim acreditar no que se quiser. Ora bem, liberdade de acreditar no que se quiser, sem dúvida. Mas não significa que ambas possam estar certas só porque não há provas. Se eu disser que neste momento, na aldeia de Montesinho, está um velhote sentado num muro a apanhar sol, e outra pessoa me disser que não, não temos meios para provar quem tem razão. Isso não significa, porém, podermos ter ambos razão. Ou está lá o velhote e eu tenho razão, ou não está lá o velhote e será o outro a ter razão. O mesmo acontece com a vida para além da morte: ou existe, tendo assim razão quem acredita nela, ou não existe, tendo razão quem não acredita.

Como não é possível provar, cria-se a ilusão de as duas crenças, na sua perfeita simetria, parecerem equivalentes e com um igual nível de legitimidade. Mas será mesmo assim? Tenho para mim não haver qualquer razão sensata para acreditar que existe vida para além da morte, não passando de uma crença infantil, caprichosa ou até mesmo primitiva, o que não acontece com a ideia contrária. Não o digo por falta de sensibilidade e de respeito por ideias opostas à minha. Eu não acredito em Deus mas vejo espaço para essa crença. Não acredito no fascismo ou no comunismo enquanto regimes saudáveis, mas vejo espaço para haver pessoas que acreditem. Vejo-as apenas como ideias erradas, do mesmo modo que um republicano acha que um monárquico está errado e vice-versa. Mas a crença na vida para além da morte, mais do que um erro, é um absurdo. Não o digo com ligeireza. Já li os principais argumentos de gente mil vezes mais sábia e inteligente do que eu na defesa dessa crença e todos eles me parecem frágeis ou mesmo ridículos. O que não acontece com as razões para não acreditar.

Quem acredita na vida para além da morte, encontra não só nos velhos mitos mas também noutras religiões, crenças nas quais, naturalmente, não acredita e considera absurdas. Pessoas que acreditam na vida para além da morte riem-se de terroristas suicidas que acreditam que irão acordar noutra vida, tendo várias virgens à sua espera. Riem-se, não pela crença noutra vida mas por por acreditarem nas virgens à sua espera. Acontece que ambas as crenças não fazem sentido. Acontece também que uma delas dá muito jeito por ser uma forma de lidar com o drama da morte. Ou seja, se no meio de várias ideias absurdas uma delas for vista com útil ou interessante, deixa de ser absurda e passa-se a acreditar nela, conferindo-lhe o estatuto de verdadeira, ficando no mesmo plano do que é objectivamente verdadeiro como é o caso da laranja ter vitamina C.

Daí a frase no supermercado me provocar algum desconforto. Desconforto, por ter dito que não acredita numa coisa na qual é absurdo acreditar, funcionando como simples antítese de uma tese com a qual partilha o mesmo grau de legitimidade. Claro que uma pessoa pode acreditar na vida para além da morte e dizer "Acredito na vida para além da morte". A pessoa acredita no quiser. Mas isso não deve obrigar quem não acredita a dizer "Não acredito na vida para além da morte". Pode dizer que não acredita que exista vida inteligente noutras partes do universo, que um dia o Homem vai conseguir a imortalidade ou que o Sporting vai ser campeão. Pode dizê-lo pois embora considere falso, faz sentido acreditar no contrário (embora com bastante dificuldade no caso do Sporting). Mas não deve dizer que não acredita na vida para além da morte, do mesmo modo que não faz sentido dizer que não acredita que as pessoas quando morrem reencarnam em peixes ou que exista uma estranha ilha no Atlântico sul onde há pessoas com duas cabeças e que só não as vemos porque vivem escondidas debaixo do solo. Pode-se dizer que não se acredita quando faz tanto sentido como acreditar. Já em coisas absurdas não se pode não acreditar. Tecnicamente, sim, claro: acredita-se no que supostamente é verdadeiro, não se acredita no que supostamente é falso. Mas não como argumento que entre no mesmo jogo de linguagem, com as mesmas regras e pressupostos, da crença contrária.