19 janeiro, 2018

V DE VINGANÇA

O Deus das Moscas [fotograma]

[Também aqui]

Como não entra nas contas um livro de Pablo Neruda que me ofereceram no Natal ainda eu mal sabia ler, o meu verdadeiro baptismo poético foi com um livro de António Ramos Rosa que comprei numa feira do livro do Cine-Clube de Torres Novas. Pouco depois veio o crisma com a Poesia Toda de Herberto Helder, numa feira do livro da Zona Alta, no edifício onde é hoje a GNR e que me custou 600 escudos (uma fortuna), mas que mal folheei percebi logo que não poderia não comprar. Hoje serei, vá, um razoável leitor de poesia, ao ponto de, até com certo orgulho, ser capaz de dizer à segunda ou terceira tentativa nomes de poetas que habitualmente só se consegue à quarta ou quinta, como Wislawa Szymborska, Marina Tsvetáieva ou Ryszard Kapuściński, embora com aborrecidos efeitos secundários como atirar perdigotos à cara de quem tiver o azar de estar à minha frente.

Falo de livros mas a alvorada da minha sensibilidade poética começara antes. Não, não foi com João Villaret numa roufenha TV a preto e branco mas já em pleno período revolucionário numa parede da ladeira dos Canitos que eu fazia quatro vezes por dia entre casa e a escola. Nessa para mim hoje mítica parede repousou durante anos esta lustrosa pérola poética, digna herdeira do nosso Cancioneiro Medieval: Otelo Saraiva de Carvalho/Que lindo nome tens tu/Tira o v de Carvalho/E mete o resto no cu. Ler quatro vezes por dia esta pérola numa idade tão importante na formação espiritual de um ser humano, só poderia ter um indelével impacto não só na minha sensibilidade literária como nos meus elevados valores. E teve. Graças àquele trecho literário percebi o que já sabia por via de uma esmerada educação mas sem disso ter consciência: poder exprimir, sem chã grosseria e ausência de pudor, o clássico desejo com que homens zangados ofendem a honra masculina dos seus interlocutores. 

Uma ausência de pudor cada vez mais gritante (também em sentido literal) nos jovens de hoje que, por tudo e por nada, estejam onde estiverem e à frente de quem estiverem, invocam com grande estridência o apelido do Fidel Castro português mas já sem o dourado V que naquela parede funcionava como guardião do respeito e da ordem. Claro que dantes se diziam asneiras e os mais velhos continuam a dizê-las. Aliás, se elas existem é para serem ditas, sobretudo em momentos dramáticos da vida como entalar o dedo numa porta, riscar o carro ao sair da garagem ou acabar de saber que o Jonas se lesionou. Eu mesmo, homem polido, fraquejei há dias ao ver com um esgar de horror vir parar às minhas calças um gorduroso pedaço de lula que teimava em não sair da espetada. Mas também por saber onde estava e com quem estava. Estivesse noutro local e tendo na mesa ao lado duas simpáticas velhinhas da Conferência de S. Vicente de Paulo e o dique não teria aberto as suas comportas para libertar o catártico vernáculo que nos ajuda a libertar da dor de existir em certas ocasiões. Por isso, a imagem que me vem à cabeça quando oiço os nossos jovens a falar sem escrúpulos, seja onde for e ao pé de quem for, são ululantes bárbaros a destruir os civilizados e moralmente engenhosos diques romanos, para deixar passar as fétidas águas do vernáculo, uma espécie de Ribeira do Nicho para ouvidos limpos e educados que acabam assim também desgraçadamente empestados.