08 janeiro, 2018

PÉ TORTO

Alfred Eisenstaedt

Um leitor medieval não pode olhar para a Ilíada do mesmo modo que um grego. Um leitor do século XVII não pode olhar para a Divina Comédia como um medieval, nem Shakespeare pode ser lido (ou visto) da mesma maneira por um leitor (ou espectador) do seu tempo e um outro do século XIX. E por uma simples razão: quem vive depois viu coisas e sabe coisas que não foram vistas nem sabidas por quem viveu antes, fazendo com que o que se lê tenha um significado condicionado tanto pelo que se viu e se sabe como pelo que não se viu nem se sabe. Daí que não possamos ler hoje um romance como Middlemarch como uma pessoa do século XIX, o século em que foi escrito.

Há tempos, recorri aqui ao Middlemarch para mostrar o modo implacável como a intelectual Dorothea Brooke atinge a sua irmã Celia, pessoa centrada nas coisas mais vulgares e mundanas da vida. A frase "Há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares" diz tudo. Recordo que a agreste atitude de Dorothea resulta do facto de a irmã embirrar com o futuro cunhado, Mr. Casaubon, um austero e feio clérigo mas completamente embrenhado em assuntos espirituais, tão valorizados por Dorothea. Porém, a narradora do romance não dá ponto sem nó, oferecendo também ao leitor, numa bandeja, o contrário: as fragilidades e limitações de uma pessoa tão espiritual como Dorothea. Vejamos três breves passagens:

"Era isso que tornava Dorothea tão infantil e, na opinião de certos juízes, tão tonta, apesar de toda a sua reputada inteligência: como provava, por exemplo, o facto de agora se lançar, metaforicamente, aos pés de Mr. Casaubon para lhe beijar os antiquados atacadores, como se ele fosse um papa protestante".

"A fé de Dorothea supria tudo o que as palavras de Mr. Casaubon deixavam por dizer: que crente tem ouvidos para discernir uma tolice ou uma perturbante omissão? O texto, seja de um profeta ou de um poeta, expande-se para acolher tudo o que nele quisermos introduzir, e até os seus erros gramaticais se tornam sublimes".

"Miss Brooke era sem dúvida muito ingénua, não obstante toda a sua alegada inteligência. Celia, cujo intelecto nunca ninguém julgara poderoso, percebia muito mais rapidamente a vacuidade das presunções alheias. Em determinadas circunstâncias, ter poucos sentimentos parece ser a única protecção contra tê-los em excesso".

O que significa ler, em 2018, estas três passagens de um livro escrito em Oitocentos? O que sabemos nós que George Eliot não saberia para que adquiram um significado diferente para nós? Atenção, não estou a falar de pessoas vivendo em planetas diferentes. Há coisas que nós sabemos que ela também já saberia. Mas é impossível ler estas três passagens sem pensar em muitas tragédias ocorridas do século passado, com a cumplicidade de pessoas como Dorothea Brooke. Pessoas que, com ingénua perversidade, puseram os ideais acima dos factos, a utopia acima da realidade, desejaram construir de raiz uma natureza humana, endireitando à força o "lenho retorcido do qual nada de direito se pode fazer" de que fala Kant, enfim, pessoas que, com os mais elevados e nobres argumentos, idolatraram monstros sanguinários ou outros que não fizeram mal a ninguém mas cujas ideias absurdas escritas com intelectual profundidade ajudaram a legitimar monstros sanguinários. Sim, "há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares". Mas também há muita que só é verdadeira para o entendimento de certas mentes que se julgam superiores e se ufanam da sua superioridade. Serão "verdades" muito diferentes mas podem ambas igualmente matar ou fazer grandes estragos em vítimas inocentes. Por muito grande que pareça o pé direito que vai do mais chão senso comum ao mais elevado telhado das ideias, a distância é muitas vezes bem pequena.