02 janeiro, 2018

O PANO E A NÓDOA

André Kertész

Calhou estar ontem à mesma mesa com uma senhora que só conheço muito vagamente e há muito não encontrava. Perguntou-me se eu já estava reformado. Há momentos na vida em que é complicado gerir uma emoção, sendo este um deles. Por um lado, se há coisa com que sonho na vida é com a reforma, com a felicidade de poder acordar todos os dias e dizer «Ai que prazer não cumprir um dever». Mas, por outro, saber que já é possível ser visto como alguém passível de estar reformado e que quando chegar a vez de me reformar irei ser ainda mais visto como alguém passível de ser reformado, não deixou de me provocar um misto de angústia e melancolia. É como estar perante a melhor das iguarias e, ao mesmo tempo, saber que tem na sua composição um elemento tóxico. A velha sabedoria popular tem uma expressão que explica tudo: no melhor pano cai a nódoa. No meu caso, ainda não estou a ver o belo e fino pano sobre a mesa mas já consigo imaginar a nódoa a manchá-lo.