04 janeiro, 2018

MANHÃ SUBMERSA

Pieter Janssens Eliga | A Varredora

Passar a ferro é a tarefa doméstica que mais detesto fazer e para a qual tenho menos aptidão. Mas com o monte de roupa ali a ganhar um volume já assustador e sendo dia de entrar um bocadinho mais tarde, resolvi que não passaria de hoje. Logo de manhã, bem cedo, fui então para a sala para a primeira etapa de tão espinhosa e desconcertante tarefa. Porém, não foi nada disso que aconteceu. Estava uma manhã de intenso nevoeiro e chuva miudinha. A sala tem vista para duas ruas, ambas com prédios, mas entre estes tenho milagrosamente um pequeno trecho de paisagem inglesa com aldeia ao fundo já em registo de miniatura. Ora, com a tábua estrategicamente colocada de frente para a paisagem, com as árvores e todo o restante verde graciosamente diluído no branco do nevoeiro, enquanto ia ouvindo a minha ópera preferida, descobri-me, como se estivesse duplicado fora de mim, numa atmosfera de absoluta e silenciosa serenidade doméstica. Esta casa fica numa terra portuguesa, no ferro de engomar está o nome de uma marca americana, a ópera é de um italiano chamado Antonio Vivaldi. Mas o tempo, aquele pedaço de tempo perdido no tempo só pode ser holandês, um tempo tão graciosamente diluído nos espaços domésticos da pintura holandesa do século XVII como o verde da paisagem inglesa no nevoeiro matinal também ele graciosamente diluído nas intemporais e pastoris árias de uma ópera barroca.