20 janeiro, 2018

MAIS CEDO OU MAIS TARDE


Tenho o maior respeito por Winston Churchill. E creio que faz todo o sentido considerá-lo um herói face à besta nazi. Não discuto por isso o que, sob um ponto de vista político, me parece indiscutível a não ser para inveterados esquerdistas que desconfiam de tudo o que não tenha a benção da teoria e práxis do socialismo científico. O que me interessa discutir é até que ponto, tal como é aqui afirmado, devem hoje os europeus a liberdade ao grande estadista inglês. Seremos mesmo livres graças ao papel de Churchill durante a II Guerra Mundial?

Pensemos nos conceitos metafísicos de «contingência» e de «necessidade» na sua relação com a verdade. Exemplos: ter estado hoje um dia de sol em Torres Novas é uma verdade naturalmente contingente. Esteve mas poderia não ter estado e se não estivesse seria uma verdade tão legítima como a anterior. Mas também existem verdades naturalmente necessárias, sendo as leis da Física disso um bom exemplo. Dizer que a terra gira sobre si própria em 24 horas ou à volta do Sol em 365 dias não é algo contingente mas naturalmente necessário. Foi assim, é assim e irá continuar a ser assim. Todavia, sendo naturalmente necessário é metafisicamente contingente, uma vez que num mundo de possíveis a Terra ou o Sol poderiam nem existir ou, existindo, poderiam existir de outro modo, sendo outras as leis da natureza ou do universo naturalmente necessárias. Também respirar por pulmões é uma verdade naturalmente necessária. Mas trata-se de uma verdade metafisicamente contingente, uma vez que num mundo de possíveis o ser humano poderia ser anfíbio ou ser tão diferente do que veio a ser que poderia respirar de um modo que nem nos passa pela cabeça conceber.

Pensando agora na história, existirão verdades necessárias ou tudo não passa de verdades contingentes? Não me parece, como defendem alguns, existirem leis da história como as da natureza, tornando a História uma ciência que estuda processos regulares e invariáveis como acontece com a Física. Nem me parece que a história obedeça a um plano racional pré-definido, como uma orquestra que segue o libreto até chegar ao fim da sinfonia. A história está cheia de verdades contingentes, a começar pela II Guerra Mundial, a qual aconteceu mas poderia não ter acontecido, bastando para isso ter havido uma conjunção de causas e efeitos completamente diferente, a começar pelo facto, esmagadoramente singelo, de os pais de Adolph Hitler não se terem conhecido. Como foi contingente a vitória aliada sobre os alemães pois bastariam outras circunstâncias para o resultado ter sido outro. Mas também nem tudo na história me parece contingente. Há na história, e afirmo-o através de uma base empírica, um progresso, ainda que não linearmente. Claro que há possíveis retrocessos, curtos-circuitos que interrompam o processo, sendo isso, no caso de acontecerem, verdades contingentes. Do mesmo modo que houve uma II Guerra Mundial poderá vir a haver uma terceira, a qual já poderia ter havido, sendo a verdade de não ter existido tão legítima como a de ter existido. 

Mas como responder à pergunta «Como seria hoje a Europa e o mundo se a Alemanha tivesse ganho a guerra?» Haveria um III Reich, um mundo germanizado, sendo os não arianos, súbditos ou mesmo escravos de um povo superior exercendo a sua tirânica supremacia? A pergunta soa demasiado especulativa, sim. Mas a resposta não tem de o ser pois a própria história dá-nos lições sobre os seus movimentos e, factualmente, não me parece concebível tal possibilidade. Trata-se de um projecto que, pela sua anormalidade, mais cedo ou mais tarde (na minha opinião, mais cedo do que tarde) desabaria em virtude das mais variadas causas, do mesmo modo que a ditadura fascista, mais cedo ou mais tarde, iria cair em Portugal ou do mesmo modo que o Feudalismo ou a existência de escravos, mais cedo ou mais tarde, iriam acabar. Tal movimento não existe, como é óbvio, de um modo metafisicamente necessário mas sim naturalmente necessário. Não, como na natureza, em virtude de leis, mas por uma natural aspiração dos povos à liberdade, à justiça e a um aperfeiçoamento moral. Claro que, de acordo com um cenário absolutamente imprevisível poderemos voltar a ter ditaduras na Europa. O mundo já mostrou ser dado a surpresas e Stefen Zweig que o diga pelo modo como viu chegar a Grande Guerra ou o mundo inteiro no dia 11 de Setembro. Mas o ímpeto para retomar o processo de uma normalidade legitimada racionalmente, continuará a prevalecer e não de um modo contingente. Sendo assim, devemos a Winston Churchill a liberdade mas de um modo contingente, apenas porque foi ele um dos principais protagonistas da resistência naquele momento. Mas não tivesse ele existido, tivesse ele morrido antes da guerra ou tivesse perdido a guerra, não seria por isso que não viveríamos agora numa Europa livre. Claro que os factos, os pormenores, seriam outros completamente diferentes, com as suas múltiplas verdades contingentes. Mas, no essencial, não seria muito diferente.