14 janeiro, 2018

IDEOLOGIAS FELIZES



Embora a memória esteja sempre condicionada pelo modo como cada pessoa filtra o passado à sua maneira, há neste passado um conjunto de factos consumados que não permite (tirando alguns casos patológicos), a liberdade de lembrar o que não existiu ou a liberdade de esquecer o que existiu. Se eu nunca almocei no Gambrinus não me posso lembrar de lá ter almoçado. Se me lembro de ter almoçado na Tia Alice é porque, de facto, lá almocei. Do mesmo modo, também não me poderei esquecer se casei ou não casei, se tive ou não filhos, se fui ou não à universidade, se estive ou não em Nova Iorque, se fiz ou não uma selfie com Marcelo Rebelo de Sousa. Em suma, os factos podem ser filtrados mas um facto será sempre um facto e um não facto será sempre um não facto.

No caso deste rapaz cujo pai foi assassinado, acontece uma coisa diferente: olhar para o passado, não como foi mas como teria sido. E se, como vimos, o que aconteceu ou não aconteceu está irreversivelmente limitado por fronteiras factuais, já pensar no passado como poderia ter sido é abrir a porta à mais pura e livre imaginação. Um filho que nunca riu com o pai depois deste ter escorregado numa casca de banana, uma vez que nunca aconteceu o pai ter escorregado numa casca de banana, nunca poderá  recordar o dia em que riu com o pai por ter escorregado numa casca de banana. Não ri e sabe que nunca poderia rir pois nunca tal aconteceu. Mas um filho de cujo passado roubaram o pai pode livremente lá meter tudo o que bem entender até ao infinito: terem jogado à bola no parque aos sábados de manhã, as leituras de histórias antes de adormecer, as viagens, as idas ao Mcdonald´s, o apoio do pai na bancada nos dias em que o filho jogava nos infantis, as macacadas de ambos na praia. Não se trata de memória mas antes de uma memória vicariante que tenderá para a mais pura felicidade, ainda que se trate igualmente de uma felicidade vicariante. Este rapaz nunca irá pensar no pai como alguém que entrava em casa sem olhar para ele, que o castigava por tudo e por nada, que nunca ia ver os seus jogos ou que nunca lhe leu uma história antes de adormecer. Não, irá pensar no pai com uma felicidade vicariante como compensação de uma felicidade que teria sido efectiva no caso de ter sido possível.

Embora até agora só tenha falado de passado, o que verdadeiramente me interessa tem que ver com o futuro. Mais concretamente, o processo pelo qual a imaginação, também com uma liberdade infinita graças à inexistência de fronteiras factuais, projecta o que ainda não existe. Das três dimensões temporais, o futuro é a única que não está condicionada por factos, exceptuando os óbvios, como o de todos irmos um dia morrer ou de não podemos estar ao mesmo tempo a almoçar no Gambrinus e na Tia Alice. E tal como o rapaz espanhol está protegido pela inexistência do que foi para poder imaginar o que bem entender, também há ideologias visionárias cuja  fértil imaginação está protegida pela inexistência do que ainda não é. Podemos livremente imaginar que hoje poderia existir uma terra do leite e do mel se o processo histórico tivesse sido diferente. Todavia, pelos testemunhos vindos do passado, sabemos com toda a certeza que tal terra nunca existiu. Mas quem poderá vir do futuro para nos dizer que tal terra nunca irá existir? Ninguém. Logo, a nossa imaginação, a nossa liberdade visionária irá ter sempre as portas escancaradas para continuar rumo ao infinito, dando origem a uma vicariante felicidade ideológica intrinsecamente protegida pela ausência de factos.