25 janeiro, 2018

CONSTELAÇÕES


«Uma bela manhã, um jovem de cabelo não excessivamente longo, mas abundante e encaracolado, acabava de voltar costas ao Torso de Belvedere, no Vaticano, e contemplava a magnífica vista das montanhas facultada pela janela da antecâmara circular adjacente. Estava suficientemente absorto para não ter reparado na chegada de um alemão de olhos escuros, que se aproximou dele num passo vivo e lhe pousou a mão no ombro, dizendo com forte sotaque: -Chega aqui rapidamente! Antes que ela mude de posição». George Eliot, Middlemarch

Este excerto nada tem de significativo. É apenas o quase início de um capítulo do romance de George Eliot que começara a ler até me vir o sono, depois de ter visto um filme. Acontece que o filme que acabara de ver, ou melhor de rever, foi o «Roma, Cidade Aberta», de Rossellini, que já estava bastante esquecido. O filme é passado em Roma e todo ele marcado pela perseguição das tropas alemães ocupantes a alguns membros da resistência italiana, sendo o suspense proporcional à brutalidade do final, em que os alemães surgem absolutamente diabolizados. Como disse, acabo de ver o filme e de imediato retomo o romance, num momento em que a sua acção é transferida da Inglaterra rural para Roma. E é quando ainda estou meio atarantado com a brutalidade alemã que, de repente, vou dar com a aproximação de um alemão a uma pessoa, pousando-lhe a mão no ombro ao mesmo tempo que diz «Chega aqui imediatamente». Não terei dado um salto mas interiormente senti um grande sobressalto. O alemão, saberemos logo de seguida, era amigo do outro homem, ambos pintores em Roma, e tratava-se de lhe chamar a atenção para reparar numa interessante mulher que contemplava, também ela absorta, uma obra de arte num museu. Porém, naquele momento, no momento em que estou a ler um romance inglês do século XIX, sou de repente levado para os anos 40 do século XX, acoplando na perfeição duas peças de um puzzle que nada têm que ver entre si. As constelações de que fala Benjamin não têm de existir apenas, objetivamente, na história. Também podem eclodir, subjetivamente, nas nossas cabeças.