16 janeiro, 2018

CLAREZA E DISTINÇÃO


Regresso ao filme "Le Diable, Probablement", de Robert Bresson. O que este rapaz acaba de dizer ao psiquiatra é muito mais do que uma simples frase. É uma ideia muitas vezes, e orgulhosamente, assumida por um certo tipo de pessoas que se desviam do que vulgarmente se considera normal, convencional, seguido pela maioria, enfim, o senso comum. Gurus, visionários, líderes carismáticos, religiosos ou políticos, que defendem as suas absurdas concepções do mundo, fazendo da sua fraqueza precisamente a sua força, isto é, a posse de uma superior verdade que poucos conseguem alcançar. Embora noutro contexto social, político e cultural, ainda recentemente, nos anos 60 e 70 do século passado, uma famosa corrente da psiquiatria defendia ser o esquizofrénico, não um doente mas uma pessoa com um sentido da realidade muito mais apurado. Um desses psiquiatras, dizia mesmo não ser o esquizofrénico um doente que falhou socialmente pela sua dificuldade em se adaptar à sociedade mas, bem pelo contrário, uma pessoa com sucesso precisamente por ter conseguido não se adaptar à sociedade, sendo esta, sim, afectada com a sua moral burguesa. Provavelmente não será o esquizofrénico nem uma coisa nem outra e neste caso estamos apenas a lidar com casos clínicos individuais que não representam qualquer perigo para a sociedade. Preocupante, sim, é a tendência de muitos para se deixarem seduzir por ideias absurdas, encarando-as como uma revelação cuja posse os torna especiais mensageiros de uma ordem nova que desejam aplicar para bem do mundo e da humanidade. Ideias absolutamente claras e que os tornam naturalmente distintos perante todos aqueles, a esmagadora maioria que apenas deseja ter uma vida normal, que não vêem um palmo à frente dos olhos.