17 janeiro, 2018

BONECAS DE CERA DERRETIDAS


Ainda hoje, e onde menos se espera, pode sentir-se a diferença entre o antigo Portugal pobre, rural e analfabeto e um outro mais urbano, rico e educado. Vi essa diferença hoje no modo como as capas dos jornais anunciam a morte de Madalena Iglésias. Nas do Correio da Manhã e do JN, jornais mais populares e lidos por camadas menos ilustradas da população, a notícia passa praticamente despercebida. O Correio da Manhã, como é seu timbre, preferiu valorizar os faits divers do costume e tão ao gosto popular, dando grande destaque ao Porsche de um jogador de futebol e a um funeral em Tondela. Já o Público ocupa metade da capa com uma fotografia da cantora. O relevo dado pelo jornal I é mesmo esmagador, enchendo 2/3 da sua capa. O DN não vai tão longe mas ainda assim dá-lhe um generoso destaque, merecendo mesmo um texto de Ana Sousa Dias. Ora, como explicar tamanho contraste?

Acontece que Madalena Iglésias, menina da rádio, da televisão, dos singles, dos espectáculos, dos festivais, vivia a muitos milhares de quilómetros de um Portugal sem luz eléctrica, sem televisão, sem rádio, feito de trabalho e de pobreza e cujo único consolo cultural era dado por ranchos folclóricos ou por alguns cantores mais populares que acediam a descer ao porão da sociedade, lá longe das luzes da ribalta. Quem eram os milhares de portugueses que, em 1969, esperavam em festa Simone de Oliveira, após ter cantado em Madrid, uma mítica Desfolhada que lhe valeu um penúltimo lugar?  Claro que não era a crème de la crème da sociedade, pouco dada a tão efusivas manifestações no espaço público. Mas era uma mediana elite, em crescente processo de terciarização, que tinha televisão em casa, que comprava singles ou LP's conforme as posses ou o grau de melomania, e cujas pessoas se juntavam ao serão (o ano passado foi na tua, este ano é na minha) para acompanhar as noites do festival da canção ou da Eurovisão. Isto, enquanto outra parte do país dormia com as galinhas (metaforicamente) ou por cima dos porcos ou das ovelhas (literalmente) depois de duros dias de trabalho, ou uma outra, que embora pudesse apreciar, fazia-o com alguma distância social e cultural.

Anos depois, uma parte do país que fervilhava com as canções do festival, urbanizando-se e cosmopolizando-se ainda mais, passou a olhar para essas canções com desdém e sobranceria, etiquetando-as de "nacional-cançonetismo", substituindo-as por novos ventos musicais, tanto estrangeiros como nacionais. Daí que naturalmente já ninguém hoje se reconheça nesse registo musical. Acontece todavia que já temos uma histórica margem de segurança que nos permite olhar para estes cantores e canções com algum respeito cultural misturado com alguma nostalgia. As canções eram musicalmente pobres, as letras uma verdadeira desgraça mas também é isso que lhe dá hoje um certo encanto, um pouco na linha daquele sentimento de condescendência com que olhamos para as crianças ou para povos culturalmente menos desenvolvidos como aborígenes e assim, cuja ingenuidade chega a ser tocante. Até porque a história faz verdadeiros milagres no que à recuperação de tendências mortas diz respeito, havendo hoje até cada vez mais uma valorização do retro ou vintage. Em termos simbólicos há um momento decisivo em Portugal, o concerto em que Vitorino, cantor de intervenção, tem a seu lado o romântico Tony de Matos para cantar com ele. E não por acaso também existem hoje várias versões de velhas canções, rejuvenescidas com sonoridades mais actuais, mas restituindo-lhe o encanto que genuinamente, e sem complexos, somos capazes de lhes reconhecer. Aconteceu agora em Portugal com Madalena Iglésias, como aconteceu há dias em França com France Gall cuja Poupée de Cire está para ela como Ele e Ela para a primeira. Também nós morremos um pouco com as suas mortes, é uma parte do nosso mundo que também morre. Bonecas da nossa infância e juventude que desaparecem como aquelas que verdadeiramente desapareceram de caves e sótãos entretanto limpos e renovados. Mas só alguns o sentirão.