29 janeiro, 2018

AS PALAVRAS SEM AS COISAS

Joel Meyerowitz

Vou a conduzir e vejo à beira da estrada um salão de festas chamado "A Tufeira". Logo me ponho a pensar no que possa ser uma "tufeira" mas um epifânico estremeção mental relegou de imediato para segundo plano o meu interesse pela palavra.

Em Torres Novas existe um bairro chamado "Tufeiras". Nome tão familiar para quem é daqui, como será "Graça" ou "Virtudes" para quem é de Lisboa ou do Porto. Por me habituar tanto a ver na palavra apenas um nome, nunca me passou pela cabeça o que possa significar como me aconteceu ao passar pela "A Tufeira". Do mesmo modo, quantos lisboetas terão dito centenas de vezes "Graça", "Junqueira" ou "Arroios" sem nunca lhes ocorrer tratarem-se de palavras com  um significado? E quantos portuenses pensam no sentido moral do nome "Virtudes" quando pensam nas Virtudes? Quem pensa no verdadeiro significado de "póvoa" e de "varzim" quando diz que vai à Póvoa do Varzim? Quando se pensa na ilha da Madeira alguém pensa em madeira? De tal modo assim não é que quando houve o grande incêndio ninguém pensou em madeira a arder tal como acontece quando arde uma florestas aqui no continente. A Madeira a arder nunca será madeira a arder, vendo-se assim até que ponto o significado da palavra se esvai na mecânica e familiar repetição de um nome.

Ora, quantas vezes não acontece a mesma coisa com conceitos nos quais pensamos tantas vezes que acabamos por deixar de pensar neles e no que verdadeiramente significam? O que é democracia-cristã ou social-democracia? Ser cristão ou católico? Que quer dizer Fulano X ser católico, fulano Y socialista e Z comunista? E que é o  bem, a liberdade, a justiça, a solidariedade, o amor ou Deus? Nomes, nomes e mais nomes que nada mais são do que etiquetas sem significado. Só quando começamos verdadeiramente a pensar no seu sentido nos apercebemos da falta de sentido que habitualmente os acompanha.