15 janeiro, 2018

ACTO REFLEXO



Esta imagem não é uma fotografia mas o fotograma de um filme, querendo isto então dizer que há um contexto temporal que passo já a explicar. Trata-se de um filme de Robert Bresson, Le Diable, Problablement, no momento de um comício de jovens revolucionários. Um deles sobe ao palco para discursar e a primeira coisa que diz, arrebatado, é: "Eu proclamo a destruição!". Grande entusiasmo, palmas, gritos de apoio na multidão. E continua o jovem arrebatado: "Todos podem destruir!". De novo grande entusiasmo, palmas e gritos de apoio na multidão. E prossegue, sem esmorecer o arrebatamento: "É fácil...Nós podemos incitar centenas de milhares de pessoas com slogans". Enfim, sem surpresa, voltamos a ter grande entusiasmo, palmas e gritos de apoio na multidão. Entretanto, um jovem, com ar céptico e de quem se sente distante de todos os outros, pergunta:" Mas destruir o quê? E como?" É então que surge o tal rapaz que vemos no fotograma, dando a sua resposta às dúvidas do amigo.

De facto, a condição mais importante no acto de destruir, é não pensar, não saber, decidir rapidamente, a fim de não cair na tentação de não agir. Acontece aqui socialmente o mesmo que num contexto neurológico com o acto reflexo. Temos no nosso sistema nervoso central dois centros coordenadores: o encéfalo (que inclui o nosso cinzento córtex cerebral cujo tamanho nos separa orgulhosamente de uma galinha) e a medula-espinal. A medula-espinal serve para coordenar acções que têm de ser rápidas. Se pegarmos numa coisa a ferver, não temos muito tempo para decidir se devemos ou não retirar a mão. É retirá-la o mais depressa possível, de um modo reflexo e automático: sem pensar, sem reflectir, sem ponderar vantagens e desvantagens, isto é, sem deliberar. Daí não precisar de ir lá acima à massa cinzenta do córtex. O problema é quando acontece algo do género em acções políticas que visam uma atitude destrutiva, total ou parcial, seja de direita ou de esquerda, face à realidade vigente. Como o rapaz céptico do filme é bom estarmos conscientes da existência de dirigentes e de multidões que, como galinhas estúpidas, agem perante a realidade apenas orientadas pela medula-espinal. E não é também verdade que uma galinha a cacarejar é o que há de mais parecido com um slogan? Anatomicamente, não é grande a distância que vai da medula espinal ao córtex. Mas há todo um abismo que separa a reflexão do simples reflexo.