21 janeiro, 2018

A OCASIÃO

Marín | As mãos da artista Celia Gámez após as palmas lidas por Giovani Tassani (Madrid, 1933)

No Modelo, junto às caixas de pagamento, está uma enorme cesta cheia de chocolates Ritter Sport, com um desconto de 30%. A cesta era mesmo grande e aquilo um ver se te avias de chocolate por tudo o que é sítio, de amêndoas, de avelã, de leite, eu sei lá. Para uma pessoa como eu, ali parado um bom bocado até ser chamado para a caixa, ver aqueles chocolates deve ser mais ou menos como para os navegadores portugueses terem chegado à Ilha dos Amores e apanharem com todas aquelas Nereidas pela frente. Claro que vi aquilo e fiquei transtornado, sentindo logo um impulso para pegar em três ou quatro.

Mas se há coisa que me irrita é esta mania de nos pressionarem para comprar coisas que não iríamos comprar se não fossemos pressionados para as comprar. E faço mesmo questão de levar a sério a ideia de que alguma diferença haverá entre mim e um pavloviano cão a salivar perante um pedaço de carne. Por isso, e só Deus e eu sabemos o que me custou, resolvi não tirar nenhum chocolate da cesta, saindo orgulhoso dali, não só por conseguir travar um básico e quase invencível impulso mas ainda por resistir ao poder sedutor da empresa. Orgulhoso, sim, mas havendo em mim um certo lado protestante que me faz igualmente refrear vãos sentimentos no que à minha pessoa diz respeito, pensei no que teria feito se se desse caso de naquele dia não ter chocolate em casa. Cá está o que não disse até agora! Por acaso, tinha chocolate em casa, e sabia que tinha. Pois, mas se não tivesse? Lamentavelmente, sou obrigado a reconhecer que ter ou não ter fez toda uma enorme e hamletiana diferença, e não tivesse eu chocolates em casa e de certezinha absoluta que iria vacilar, submetendo-me miseravelmente ao poder tirânico dos meus impulsos e da malícia capitalista.

Suponhamos entretanto que mesmo atrás de mim estaria um tipo exactamente a passar pela mesma angústia, mas sem ter chocolate em casa e sabendo que não tinha chocolate em casa, não resistindo por isso, e só por isso, à tentação, agarrando vários chocolates para levar. Vejamos agora. No que diz respeito à acção propriamente dita, é enorme a diferença entre nós: eu não levo chocolates, ele leva chocolates; no que à gestão dos impulsos diz respeito a diferença é também enorme: eu consegui resistir ao meu impulso, ele não conseguiu resistir ao seu impulso; por fim, no que à questão do mérito diz respeito, a diferença não é menos enorme: eu sou digno de admiração e de louvor pela minha fortaleza, ele é digno de comiseração e desprezo pela sua fraqueza. Porém, a grande diferença, o que verdadeiramente nos separa é outra coisa: eu sou aquele que tinha chocolate em casa, ele é aquele que não tem chocolate em casa. As nossas decisões são escravas dos nossos desejos. Mas os nossos desejos também não são menos dependentes das ocasiões. Dizer que a ocasião faz o ladrão é apenas uma sub-espécie da ideia de que a ocasião faz o desejo. Juntar fortes desejos a fracas ocasiões é bem diferente de juntar fortes desejos a fortes ocasiões.