05 dezembro, 2017

PERTURBAÇÃO


Não, não venho falar do romance de Thomas Bernhard que dá o título a este post mas do quadro de Balthus, O Sonho de Teresa, o que acaba por também por envolver parte do universo do pintor francês. Não porque tivesse hoje acordado com especial apetência para falar do quadro ou do pintor mas apenas por causa de mais esta magnífica notícia. 

Os testes projectivos são um modelo bastante comum dentro dos testes de personalidade. Trata-se de um teste no qual uma pessoa ao realizar uma tarefa acaba por por projectar aspectos da sua personalidade ou certos estados mentais e emocionais. Por exemplo, põe-se à sua frente um desenho ou uma pintura passível de várias interpretações (quanto mais ambígua melhor), pedindo-se para a interpretar. Ora, ao fazê-lo, e ao fazê-lo de uma certa maneira em vez de outra, permite perceber certos estados internos não directamente observáveis. Lembrei-me destes testes por causa da petição em que se pede para retirar o quadro do Metropolitan, considerando "perturbador" que o grande e prestigiado museu apresente um quadro daquela natureza, lembrando ainda que numa exposição em 2013 dedicada ao pintor se encontrava um aviso que alertava para o facto de algumas pinturas poderem "perturbar" os visitantes. Ora, de que terão medo estes bíblicos zeladores da moral e bons costumes e das consciências? Qual a causa do medo que leva certas pessoas a não quererem ver o quadro, a sentirem-se chocadas com o quadro, a verem no quadro qualquer coisa de ignóbil e perverso? Sim, falam  dos pedófilos. Mas os pedófilos serão as últimas pessoas a sentirem-se perturbadas, chocadas, horrorizadas, com este quadro! 

Olhemos bem para o quadro. Sim, o seu motivo central é uma rapariga numa pose lânguida e numa posição que permite ver as suas cuecas. E apenas isso: uma rapariga numa pose lânguida e numa posição que permite ver as suas cuecas. Um momento que toda a gente que teve filhas, sobrinhas, netas, filhas de amigos ou de vizinhos, observou com raparigas desta idade, onde uma mente infantil ainda torna displicente a relação com o seu corpo e a roupa que o cobre, numa idade em que esse corpo começa a deixar de ser sexualmente neutro. Acontece num sofá, num jardim, no chão de uma sala a ler um livro, a brincar. É normal. Claro que ao passar este tipo de situação para a pintura, terá um impacto que não tem na vida real. Sim, é verdade. Mas o que levará uma pessoa a sentir-se perturbada com a rapariga? Eu olho para ela, volto a olhar, olho para o quadro com atenção, para todo o quadro que existe para além das cuecas da rapariga, e,vá-se lá saber porquê, não sinto qualquer perturbação. E não é por ser pedófilo pois se o fosse poderia sentir uma atracção ou excitação que, de todo, não sinto. Percebo a erotização estética do corpo de uma rapariga que já não sendo criança, não é ainda adulta, consigo mesmo perceber a possível excitação de um pedófilo perante a imagem mas isso não implica sentir a excitação do pedófilo nem a perturbação de quem fica chocado. Mas qual é o problema? Qual é o problema de perceber que uma rapariga está a mudar e a ganhar um corpo sexuado? É preciso ficar chocado, por um lado, ou excitado, por outro? Temos que ficar chocados ou excitados sempre que vemos uma mulher nua num quadro? Não podemos apreciar esteticamente um corpo nu numa pintura sem ter que, digamos assim, sentir os mais primários impulsos a darem sinal? Sim, repito, eu vejo esta rapariga e percebo perfeitamente que é uma rapariga que se está a tornar mulher. E vejo o gato, vejo o quarto ou sala, vejo a cor, vejo a luz, vejo toda a atmosfera que envolve o quadro e cujo impacto estético é inegável.

Uma das coisas que me dão verdadeiramente prazer é entrar na sala de um museu, ver lá muito ao longe um quadro que nunca vi e adivinhar o seu autor. Dizer "Olha ali um El Greco, olha ali um Modigliani, olha ali um Rubens, olha ali um Schiele". Porque uma das coisas que mais gosto na pintura é o facto de cada pintor criar um mundo novo, que é só dele, ou que não sendo apenas dele, tem a sua própria impressão digital. Não quer isto dizer que o simples facto de ter um mundo faça com que goste dele. Há pintores que o têm e considero-os insuportáveis. Balthus, não sendo um dos meus pintores preferidos, criou um mundo de grande valor artístico e passível de proporcionar uma experiência estética que posso estar longe de desprezar sem que esteja aqui obcecado a pensar nas cuecas brancas da menina ou seja lá o que raio mais for. As cuecas da menina não mordem. Morder, isso sim, mordem as consciências de muitas pessoas.