20 dezembro, 2017

OS ESCRITORES

André Kertész | Série On Reading

Viver em sociedade permite compensar a falta de auto-suficiência de cada um. Daí um electricista, um médico, um agricultor ou um mecânico de automóveis se complementarem. E eu preciso bem mais de todos eles do que eles de mim, sendo por isso enorme a minha gratidão.O que sinto em relação aos escritores de quem gosto é também um pouco isso mas muito mais do que isso. O melhor que me pode acontecer quando leio um livro é sentir que estou a ler o que gostaria de ter escrito sem disso ser capaz. Aqui a gratidão é outra. Não se trata já de uma gratidão utilitária, como acontece com a cabeleireira que me corta o cabelo ou a dentista que me restaura o dente, mas de uma gratidão mais íntima ou psicológica. Jamais me passaria pela cabeça ser dentista ou cabeleireiro, apesar de não passar sem eles. Mas não me importaria nada de ser escritor. Só que em vez de ficar invejoso, frustrado, irritado, ressentido, por ver um escritor a fazer tão bem aquilo de que não sou capaz, fico feliz por ver no papel o que eu gostaria de lá pôr se conseguisse. Não escrevi aquilo, sei que não escrevi aquilo mas sinto-me como se fosse eu a escrever. Estou a ler e, sem ter qualquer trabalho, vejo aparecer nas folhas, quase por milagre, coisas difíceis de escrever, só tornadas possíveis graças ao talento de alguns. Quero lá saber que seja outra pessoa a escrevê-lo. O que eu quero é ver a coisa escrita, revelada, a emergir no papel. E, ao contrário do que se passa com o electricista, o dentista e a cabeleireira, em que o meu reconhecimento é pago com dinheiro e um obrigado no fim, em relação aos escritores o meu reconhecimento é feito de prazer, júbilo, sentimento de plenitude e de auto-conhecimento por estar a lê-los. É verdade que não me conhecem nem jamais me conhecerão para eu lhes poder dizer isto. Mas não deixam de ficar homenageados no lugar mais rico que existe dentro de mim.