16 dezembro, 2017

O LEITOR FANTASMA

Sir John Lavery| Uma Noite de Outubro

Por mero acaso, calhou ler este texto no qual há duas coisas que não entendo. A primeira, é a sua autora referir o grego antigo de Homero, o japonês de Mishima, o russo de Akhmatova, o húngaro de Márai ou o polaco de Szymborska, como línguas que não domina. Domina? Eu teria falado de línguas que não entendo, das quais não percebo patavina, excepto as palavras "labdarúgás" e "kézilabda" que significam, respectivamente, "futebol" e "andebol" em húngaro, e sei-as pela simples e prosaica razão de ter diariamente o meu matinal choque de realidade, vendo as capas de jornais nacionais e internacionais, incluindo os desportivos. Não incluí o alemão de Thomas Mann ou Hermann Hesse por admitir que se possa dar mesmo o caso da autora não dominar a língua, em vez de nada perceber.

Mas há outra coisa: não saber o que teria sido ser privada de todos aqueles escritores. Eu não conheço pessoalmente a autora do texto mas, fosse o caso, dir-lhe-ia que ser privada de um escritor é tão dramático como Filipe II ter sido privado do fecho-éclair, do qual nunca sentiu qualquer falta pois nunca iria pensar no que não pode ser pensado pelas simples razão de que não se pode pensar no que não se sabe que existe. O mesmo se passa num contexto literário. Embora goste muito, mas mesmo muito, de livros como Antígona, D. Quixote ou Os Maias, confesso não sentir qualquer falta dos livros que nunca chegaram a ser escritos por Sófocles, Cervantes ou Eça, porque nunca se lembraram de os escrever ou porque entretanto morreram. E se, por acaso, Sófocles, Cervantes ou Eça nunca tivessem chegado a nascer em virtude dos seus pais nunca se terem conhecido, ou terem-se conhecido mas em vez de nascerem os próprios Sófocles, Cervantes ou Eça que escreveram aqueles livros, terem nascido pessoas que teriam feito outra coisa na vida, ou dar-se ainda o caso de terem mesmo nascido mas morrido em crianças, facto normal nas suas épocas, não chegando por isso a escrevê-los, que remédio tinha eu senão viver a minha vida sem nunca os ter lido. Espero, portanto, em prol da saúde mental da autora, que não se sinta então especialmente perturbada por existirem excelentes autores por esse mundo fora, dos quais nunca ouviu falar, ou então que já ouviu mas que escrevem, ou escreveram, em línguas que não domina, como o sueco, o albanês, o checo ou o servo-croata, não estando, porém, e desgraçadamente, ainda traduzidos. É que há vida para além dos livros, dos que se leram mas sobretudo dos que nunca se leram nem se irão ler.