02 dezembro, 2017

JOSÉ SÓCRATES




«Quando temos de mudar de opinião acerca de alguém, atribuímos-lhe com rudeza o desagrado que ele nos provoca com isso». F. Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, § 124

Um polícia mata, acidentalmente e em legítima defesa, um homem que acabara de cometer um crime. Sendo o polícia conhecido pelo seu método pouco ortodoxo para lidar com criminosos, e recentemente punido por isso pelo seu superior, fica assustado com a ideia de não acreditarem no que aconteceu e resolve esconder o morto, que virá entretanto a ser descoberto. O principal suspeito, por razões que não vale a pena explicar, é um taxista já velhote, bonacheirão, excelente homem, algo ingénuo até, e pai da rapariga com quem o polícia recentemente se envolveu (uma Gene Tierney sempre em estado de graça), também uma doce e gentil pessoa que adora o pai. Temendo dizer a verdade, mas também angustiado com a ideia de ver o inocente velhote acusado, o polícia diz que se deve seguir a pista de um patife ligado ao bas fond mas, de facto, sem qualquer relação com o crime. Isto passa-se num film noir de Otto Preminger chamado Where the Sidewalk Ends [O Castigo da Justiça]. Eu estou a ver o filme com a consciência de estar a sentir o que o realizador quer que eu sinta: que o patife, apesar de inocente, venha a ser considerado o autor do crime. É perverso da minha parte? É. Apesar de o homem ser o que é, não cometeu o crime, sendo por isso moralmente errado desejar a sua acusação. Mas também sou humano, significando isso que, para além de pretender orientar-me por crenças, desejos e decisões racionais, sou também feito de insidiosas emoções e sentimentos.

Vem isto a propósito de José Sócrates. Mesmo reconhecendo que não fica bem fazer exercícios de auto-enaltecimento, vou perder o pudor e assumir que sou uma boa pessoa e com bom feitio, muito pouco dada a ódios e aversões radicais. Há, porém, algumas excepções, e José Sócrates é uma delas. O homem consegue fazer soltar o vago e remoto selvagem que há em mim, exaltando emoções que deviam estar desactivadas algures numa caverna pré-histórica. Só que perante tão execrável criatura, não consigo sentir menos do que nojo e repugnância. Esta asquerosa personagem da nossa democracia está acusada de diversos crimes, beneficiando, porém, formalmente, da presunção da inocência. Quando, entretanto, o julgamento se iniciar, há duas possibilidades: é ilibado e vai para casa gozar a sua vida, ou é acusado de todos ou alguns dos crimes e passa a ver o Sol através das grades. É aqui que, pecador me confesso, torço ardentemente para que seja considerado culpado. Eu sinto e acredito que o homem não presta, que não passa de uma reles pessoa. Se for culpado, isso vai confirmar o que penso dele, apaziguando assim a minha consciência, pois apenas desejo que ele seja mesmo o que desejo que ele seja, evitando assim uma desconfortável dissonância entre o que eu desejo pensar (que cometeu os crimes) mas que a realidade não consegue provar. Já vê-lo ilibado dos seus crimes os quais, se for esse o caso, não foram cometidos, não irá de qualquer modo alterar a minha ideia a seu respeito, deixando-me, por isso, desiludido. Deus é grande e há-de saber perdoar-me.