18 dezembro, 2017

ISTO É MESMO UMA TESOURA


Pensei ter sido vítima do zelo mais extremo e paternalista que se poderia supor, depois de ver um técnico de saúde explicar, com um imaculado fervor didáctico, que a melhor maneira de as pessoas se protegerem do frio é andarem na rua bem agasalhadas e terem a casa aquecida. Precipitei-me, todavia, pois o que parecia ter um valor absoluto logo desceu para um outro mais temperado e relativo. No Modelo aqui perto de casa, na parede junto à mesa onde as pessoas embrulham as prendas em regime de self-service, dois papéis, vermelhos e brancos como os sinais de trânsito de perigo, avisam que as tesouras são objectos cortantes, devendo-se por isso ter cuidado a manuseá-las. Como diria Camilo, «Isto orça por parvoíce mas é original, merecimento raro nas parvoíces que por aí se escrevem e dizem», das quais eu próprio serei o último a ousar ilibar-me.

Com um rigor escolástico digno de um De Ente et Essentia, o que avisa o providencialíssimo aviso, pois é bom lembrar que os avisos visam avisar, é que uma tesoura é mesmo uma tesoura, uma vez que o cortar está para o cortante objecto, como o iluminar para a lâmpada, o refrescar para a ventoinha ou o picar gelo para o picador de gelo, excepto em thrillers eróticos, embora também seja verdade que coisas como BMW's, roupas e camarões que, à partida, serviriam apenas para deslocar, vestir ou comer, visam outros propósitos bem afastados das respectivas essências. Parece recorrer o prudente hipermercado à mesma estratégia que em Mocondo, localidade de Cem Anos de Solidão, onde por causa de uma terrível amnésia que atinge os seus habitantes estes começam a escrever placas como "Isto é uma árvore" junto a uma árvore, "Isto é uma casa" junto a uma casa, ou ainda "Isto é uma vaca e uma vaca dá leite que é preciso tirar diariamente", placa que, como facilmente se presumirá, não seria fixada junto de uma pocilga, de uma capoeira ou de um tanque com peixes, mas no animal cujo nome se lhe adequa tão adequadamente como o nome "rosa" à respectiva flor que se vê e cheira embora haja coisas rosas que não são flor como é o caso de camisolas alternativas do Benfica ou uma Rosa Luxemburgo que até era polaca e nem teve direito a nome de jardim em Paris.

Sendo a comparação legítima, é óbvio que a causa será outra, graças a Deus, que isto de amnésias é mais coisa para afectar políticos, banqueiros e CEO's. Nestes tempos de pós-modernidade, tão pós-modernos que a própria pós-modernidade parece já ser um pré-qualquer, muitas coisas que parecem que são, não o são, enquanto outros que parecem não o ser, afinal são-no, e deixo já as minhas desculpas pelo algo barrocado e retorcido atavio da frase que mais parece ter origem numa "catedrática embriaguês", como diria de novo o grande Camilo, com a sua irónica placidez. Começou na própria arte, com cachimbos que não são cachimbos apesar de o serem, ou com urinóis que sem o deixar não o são de todo. Depois, com a novilíngua de que fala Orwell, com a langue de bois, cunhada pelos franceses, para além da correcção política que tanto aturde as consciências, deixando-as sem saber o que é normal ou anormal, verdade ou inverdade, o mundo, a pouco e pouco, foi perdendo as suas referências. O Modelo, porém, fazendo jus ao seu nome, não está para desvairadas afasias mentais, mostrando aos seus privilegiados clientes que o platonismo ainda não morreu e que na mais pura inteligível realidade, bem acima das contingências deste mundo que, por vezes, como no filme, mais parece um manicómio, uma tesoura é mesmo uma tesoura é mesmo uma tesoura.