04 dezembro, 2017

FRITZ VON UHDE - A IRMÃ MAIS VELHA, 1885



Poder ter estado alguma vez numa velha casa abandonada, cheia de caliça pelo chão e por objectos destroçados, permite saber o que é uma casa abandonada cheia de caliça pelo chão e por objectos destroçados. Saber o que é uma casa suspensa na sua tranquila ruína da qual o tempo fugiu, deixando-a ensimesmada e entregue a um vazio que se eternizou. Claro que será sempre possível propor o exercício a quem nunca esteve numa casa assim, pondo a sua imaginação a trabalhar, associando imagens conhecidas para dar origem a novas imagens. É o que fazemos, por exemplo, com seres imaginários como o centauro ou a sereia. Nunca ninguém os viu mas, graças à imaginação que associa coisas conhecidas, como homens e cavalos ou mulheres e peixes, podemos então ver coisas nunca vistas. Portanto, é possível imaginar o interior de uma velha casa abandonada, cheia de caliça que vai obstruindo os seus poros e impedindo-a de respirar. Mas não é a mesma coisa. A imaginação pode ser poderosa mas faltam-lhe as verdadeiras sensações, ouvir o verdadeiro silêncio, sentir o cheiro, as verdadeiras cores e, sobretudo, captar numa só impressão um todo que é anterior à soma das suas partes. 

Eu já estive e diversas vezes. Daí ser essa a minha primeira impressão perante esta tela do pintor alemão cujo pincel é levado por uma sensibilidade impressionista. Com a diferença, porém, de, neste caso, a casa não estar abandonada, estando duas figuras humanas, duas irmãs, que certamente habitam a casa desabitada. Não se trata de uma contradição, isto de habitar uma casa desabitada, bastando olhar para o entender. O modo como as duas figuras sobressaem do fundo da tela graças a contornos bem definidos, aproxima-se de uma abordagem realista, longe, portanto, da impressão mais pura e radical, tão comum na época, em que a figura humana se desvanece na própria paisagem ou se transforma em mancha, em traço ou em simples ponto inscrito na tela. Mas as duas figuras também estão de tal modo presas ao fundo que acabam por fazer parte dele. E não estou sobretudo a pensar na continuidade cromática entre a saia da irmã mais velha e as pernas da irmã mais nova com o resto da casa. Penso, sim, ou melhor, vejo, caliça por todo o lado e não apenas a desfazer-se na parede, no chão ou sobre a cadeira como numa típica casa abandonada e em ruínas. Uma caliça omnipresente, uma insidiosa caliça que uniformiza toda a casa e à qual não escapam as duas figuras que lá vivem. Por isso a casa não está verdadeiramente habitada, isto é, ocupada por pessoas que se posicionam sobre um espaço que lhes é exterior. Estas duas raparigas, estando lá, são duas ruínas dentro da própria ruína, dois fantasmas oprimidos pela atmosfera fantasmagórica da casa e cuja respiração e cheiro é a respiração e cheiro da própria casa.

Mas o quadro tem tanto de dramático como de esperança. Há duas manchas cromáticas dissonantes na imagem. O branco na irmã mais nova, um branco que exprime uma pureza e inocência que nada tem que ver com o infectado branco da caliça que contamina todo o quadro. Mas vale sobretudo o vermelho da irmã mais velha. Um vermelho que tanto pode ser de sangue como de fogo, sangue ou fogo que imprimem  um sopro vital, movimento, energia a duas figuras em risco de desvanecimento. Faz por isso todo o sentido que este quadro onde surgem duas irmãs, se intitule A Irmã Mais Velha. Não se trata de dar mais valor a uma do que a outra enquanto pessoas mas apenas de traduzir sinteticamente o que se está aqui a passar. A mais pequena, olhando sem nada perceber do que acontece, do que vive ou até da própria casa enquanto a mais velha, qual poderosa locomotiva de ferro, caminha para o exterior, para um mundo real que existe lá fora. A direcção do olhar para baixo não exprime submissão, desistência ou vacilação. É o olhar de quem tem o peso do destino às suas costas  e que contra o qual tem de lutar em vez de se sentar numa cadeira com pedaços de caliça e a desfazer-se. A história conhecida destas duas raparigas começa e acaba aqui nesta imagem. Não há aqui nem antes nem depois, apenas um movimento suspenso. Mas a cor da sua camisa, a firme robustez do seu corpo e aquele olhar não ausente mas antes concentrado no que mais importa, faz-me acreditar que passado pouco tempo a casa ficou finalmente entregue ao silêncio e aos restos de caliça que continuaram a cair como flocos de neve numa despida paisagem invernal.