22 dezembro, 2017

EM LOUVOR DA HIPOCRISIA

Anja Miller

Há muito que se tornou lugar comum criticar o Natal por causa da sua atmosfera de beata hipocrisia. Mas onde muitos vêem motivo de crítica, eu consigo ver uma inestimável virtude. A hipocrisia é um dos mais nobres e belos sentimentos da humanidade, uma das grandes conquistas do seu processo evolutivo, substituindo, a pouco e pouco, processos bem mais sinceros e honestos como o desejo, e consequente prática, de matar, ferir, torturar ou simplesmente prejudicar pessoas, sem precisar de dissimular a enorme satisfação que isso provoca nos agentes.

Seria maravilhoso, quiçá sublime, ver a humanidade como uma espécie de comunidade evangélica na qual todos seríamos irmãos. Só que não é, nunca foi, nem nunca será. E, sinceramente, nem teria de o ser para tornar a vida razoavelmente suportável neste barco onde todos navegamos sem sabermos bem para onde vai. Nós não temos que amar o vizinho do lado que tem sempre a televisão em altos berros, os colegas de trabalho que nos fazem trabalhar muito mais do que o necessário, a senhora do mini-mercado onde vamos comprar os legumes e a fruta ou os funcionários das finanças que nos atendem para tratar dos nossos impostos. Não temos e, até pelo contrário, temos todo o direito de com eles embirrar e desejar vê-los pelas costas o mais rápido possível. Ora, se não é maravilhoso, apesar disso, conseguirmos cumprimentá-las, esboçar um sorriso nos lábios ou mesmo criar um ambiente razoavelmente suportável, então não sei mesmo o que possa ser maravilhoso socialmente.

Vale a pena lembrar o sentido teatral que encontramos na etimologia da palavra "hipocrisia". E, de facto, quando somos hipócritas não passamos mesmo de actores a representar um papel que estudámos e que não coincide com o que verdadeiramente sentimos e pensamos. Mas aí é que está. Ao fingirmos sermos bons, ao aprendermos cada vez melhor o papel do que seríamos idealmente, acabamos por sorrateiramente nos irmos aperfeiçoando social e moralmente. Assim  um bocadinho como as regras de etiqueta. Deve haver poucas coisas tão teatrais como as regras de etiqueta. Trata-se, porém, de uma teatralidade que foi tornando as pessoas cada vez mais educadas e polidas, tornando-se com o tempo tão natural que a sua origem deixou de fazer sentido, passando a fazer parte da identidade das pessoas. Com a hipocrisia sucede o mesmo. Fingindo sermos bonzinhos, vamos domesticando a besta que há em nós, embora mais nuns do que noutros, havendo infelizmente quem ainda não consiga ser suficientemente hipócrita. Mas se a besta que há em nós consegue parar na rua para sorrir e falar amenamente com alguém que detesta e a quem ainda se lembra de desejar Boas Festas, é porque deixou, definitivamente, de o ser e mostrando estar no bom caminho. Entretanto, aproveita a besta que há neste blogger para, com dose suficiente de sincera e genuína hipocrisia, desejar o mesmo a todos.