03 dezembro, 2017

EDUCAÇÃO COGNITIVA


Há muitos anos, o crítico de televisão Mário Castrim veio a Torres Novas dar uma palestra e fui ouvi-lo. Foi mesmo há muitos anos e já não me recordo de nada do que disse, excepto a sua defesa de uma certa ideia de censura, ainda que pedagógica. Claro que ouvir um comunista dizer "censura", ainda que por elevadas razões pedagógicas, faz sempre ficar de pé atrás, se pensarmos nos opressores regimes que ainda são uma referência para a nossa esquerda paleolítica que celebra a Revolução de Outubro. Mas sendo eu todo ouvidos e nada preconceituoso, levei a sério uma analogia que serviu de base ao seu argumento: se existem medicamentos que não são de venda livre pelos seus possíveis efeitos secundários, por que não há-de acontecer o mesmo com produtos culturais que podem influenciar negativamente os comportamentos? A analogia é poderosa e o tema delicado, sendo isso razão para que goste sempre de o discutir, tendo-o já proposto várias vezes para debater em 90 minutos de aula de Filosofia.

Excluindo, por razões óbvias, os nichos infantil e juvenil, ou conteúdos que, fora de um contexto artístico, incentivem ostensivamente qualquer tipo de violência (por exemplo, o terrorismo ou violência sexual) sou contra qualquer tipo de censura ou condicionamento das artes no que toca à transmissão de valores ou diferentes registos de vida. Ao contrário dos medicamentos, onde a relação causal entre a sua ingestão e um dado malefício é clara e directa, nada me diz que a mesma se estabeleça entre um filme ou um livro e um comportamento desviante. Não só a esmagadora maioria das pessoas, apesar dos zeladores das consciência pensarem que não, tem dois dedos de testa para saber distinguir um filme da realidade, como são múltiplas e complexas as causas que levam as pessoas a serem o que são. Não vejo por isso qualquer razão para impedir o que para mim é sagrado e inalienável: a liberdade criativa, mesmo que não gostemos do seu resultado, e a sua imunidade face a quaisquer amarras ideológicas que a limitem.

Não é por acaso que venho com esta conversa, que tanto serve para as artes como para a vida quotidiana. Em Portugal passa um bocadinho ao lado (havendo algumas felizes excepções) mas há países onde se está a dar grande destaque ao assunto, nomeadamente por causa dos ventos moralistas (sobretudo no mundo anglo-saxónico) que pretendem varrer tudo o que possa contaminar ideias bacteriologicamente puras no campo dos valores e comportamentos, fazendo com que a clássica ligação entre censura e regimes ditatoriais passe para dentro de sociedades livres e abertas. A França é um dos países onde o tema está na ordem do dia e vou pegar em três situações distintas.

Uma pessoa lê isto e não pode deixar de pensar que virá um dia, caso seja um filme português, em que os actores não vão poder aparecer a comer feijoada, cozido à portuguesa, francesinhas ou tripas, uma vez que pode contribuir para o aumento de doenças cardiovasculares. E nem pensar em cenas em restaurantes de fast food. E que para além do facto de já não haver heróis ou heroínas de cigarro na boca (uma boa ideia é meter só os maus a fumar para pavlovianamente  se sentir aversão pelo acto de fumar), também irá desaparecer de todos os filmes qualquer tipo de bebida alcoólicas, apenas, vá, uma cervejita ou outra mas na condição de ser um filme para maiores de 18 anos e com bolinha vermelha. E por falar em bolinha vermelha, em cenas de cama, os actores deverão deixar bem claro aos espectadores, que usam preservativo: sempre que vai haver sexo, o actor pisca o olho para a câmara enquanto abre o preservativo, para criar um clima de pedagógica cumplicidade com o espectador. E os heróis devem passar a ser também representantes de minorias. Nada de heróis brancos, heterossexuais e saudáveis, o herói deve passar a ser preto, homossexual, ou transsexual, ou bissexual, ou panssexual e, já agora, se tiver algum tipo de deficiência, tanto melhor.

Por outro lado como aqui, se pode ver, passou-se a questionar a possível avaliação de uma obra cinematográfica com base nos defeitos morais dos seus realizadores ou actores (o caso recente da troca de Kevin Spacey por Christopher Plummer no trabalho de pós-produção do último filme de Ridley Scott, é eloquente). Eu nem quero pensar na quantidade de escritores, compositores, músicos, pintores, cujas obras irão um dia para o Index, pela sua associação a valores considerados repugnantes. O que mostra que, segundo os guardiões do politicamente correcto, os espectadores são duplamente estúpidos. Estúpidos porque levam os maus exemplos do cinema para a realidade (Será que no tempo de O Último Tango em Paris, terá havido um aumento brutal na compra de manteiga?) mas também por levarem os maus exemplos da realidade para o cinema, ainda que o actor ou a actriz façam papéis de anjinhos da guarda.

Muito interessante esta entrevista com uma professora de cinema em Chicago que, num acto de grande coragem e resistência cívica, deita uma aliviadora água na fervura, só por dizer que há situações e situações no que diz respeito ao que se pode considerar ofensa ou crime sexual. E há coisas que são efectivamente de mau gosto e merecem reprovação. Por exemplo, transformar uma apresentadora de televisão num objecto sexuado é reprovável e merecedor de crítica, uma vez que desvirtua o seu papel que, naquele contexto, não passa pela sua "boca de felatio", as mamas ou as pernas. Outra coisa, porém, é sexualizar o corpo masculino ou feminino no cinema, na pintura ou na fotografia. Reprovar ou limitar esse processo nada tem que ver com a arte em si mas com representações ideológicas  e morais que, podendo até ser justas e sensatas, não têm legitimidade para condicionar o processo artístico. Infelizmente, parece termos conversa para muito tempo.